Jackson Cionek
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Bem-Viver Metabólico: economia a serviço da vida, não do lucro dos 01s

Bem-Viver Metabólico: economia a serviço da vida, não do lucro dos 01s

Quando eu olho para a palavra “economia”, eu não vejo planilha, PIB ou gráfico de crescimento.
Eu vejo corpos respirando, cidades consumindo energia, rios sendo desviados, florestas derrubadas, alimentos circulando, gente acordando cansada ou descansada.
Pra mim, economia é, antes de qualquer coisa, metabolismo social:
um jeito de distribuir energia, tempo e matéria entre corpos, comunidades e biomas.
Se eu parto dessa imagem, a pergunta muda:
  • não é mais “quanto o país vai crescer?”

  • é “como o país está metabolizando a vida?”

E aqui eu proponho a ideia de Bem-Viver Metabólico:
Bem-Viver Metabólico é quando o metabolismo da economia permite que corpos e biomas permaneçam em Zona 2 — fruição, presença, criatividade — em vez de serem arrastados para Zonas 3 crônicas de colapso, exaustão e dívida.
Os 01s — aquela minoria que concentra riqueza, dados, mídia e crédito — pensam a economia como máquina de extração: de minérios, de florestas, de trabalho, de atenção, de tempo de vida.
Eu quero pensar a economia como corpo: com limites, ritmos, necessidades, recuperação e cuidado.


O foco que eu quero acender aqui

De tudo o que dá pra dizer sobre economia e bem-viver, eu escolho um ponto só:
Uma Constituição democrática precisa reconhecer que a economia é metabolismo de bioma + gente — e que, acima de um certo nível de extração e desigualdade, esse metabolismo adoece e começa a matar os próprios corpos que o sustentam.
Ou seja:
  • uma economia pode ter PIB em alta e, ao mesmo tempo,

  • estar produzindo crescimento antieconômico: quando o custo ecológico e social é maior que qualquer benefício material.

Bem-Viver Metabólico é o contrário disso.
É quando:
  • o bioma continua funcional (água, clima, solo, biodiversidade);

  • os corpos conseguem viver mais tempo em Zona 2;

  • e a organização econômica não exige sacrificar saúde, tempo e território para sustentar lucro de poucos.




Metabolismo social e o “rasgo metabólico”

A tradição da ecologia marxista fala em “rasgo metabólico” (metabolic rift): o capitalismo rompe o metabolismo entre sociedade e natureza ao separar brutalmente cidade e campo, consumo e lugar de origem dos recursos.
Na prática, isso significa:
  • nutrientes saem do solo, viram alimentos, vão para as cidades;

  • em vez de voltarem ao solo, viram lixo, esgoto e contaminação;

  • florestas viram mercadoria, depois lixo não reciclável;

  • energia fóssil vira CO₂, calor, acidificação dos oceanos.

Esse rasgo metabólico aparece hoje em:
  • aquecimento global,

  • colapso da biodiversidade,

  • acidificação dos oceanos,

  • eventos climáticos extremos.

O que a ciência chama de limites planetários é justamente isso: um mapa dos limites desse metabolismo Terra + economia. Quando passamos desses limites, o sistema entra em zonas de risco imprevisível.
Quando eu penso em Bem-Viver Metabólico, eu estou perguntando:
que tipo de economia mantém o metabolismo Terra + sociedade dentro de uma Zona 2 planetária, onde ainda é possível reorganizar, reparar e criar?


Doughnut, Buen Vivir e o espaço seguro para viver

Algumas propostas recentes ajudam a visualizar isso.

Planetary boundaries + justiça social

O trabalho de Rockström e colegas sobre planetary boundaries descreve nove processos críticos do sistema terrestre (clima, água, ciclos biogeoquímicos, biodiversidade etc.) e tenta definir um espaço seguro de operação para a humanidade.
Kate Raworth pega essa ideia e sobrepõe uma base social mínima: direitos humanos básicos, inspirados nos ODS. Ela cria o diagrama da Doughnut Economics:
  • o anel externo são os limites ecológicos;

  • o anel interno é o piso social (ninguém deve ficar abaixo);

  • o “miolo” do donut é o espaço ecologicamente seguro e socialmente justo onde a economia deveria operar.

Essa imagem é muito próxima do que eu chamo de Bem-Viver Metabólico:
  • o limite externo é o metabolismo da Terra — não dá pra negociar com física, química e biologia;

  • o limite interno é o metabolismo humano — corpos precisam de descanso, alimentação decente, cuidado, afeto, pertencimento.

Entre essas duas bordas, há um espaço onde nós podemos viver em Zona 2 como espécie.

Buen Vivir / Sumak Kawsay

Na América Latina, especialmente no Equador e na Bolívia, aparece o conceito de Buen Vivir / Sumak Kawsay, que desloca completamente a pergunta:
  • em vez de “como crescer?”, é “como viver bem em comunidade, em harmonia com a Pachamama?”;

  • não se trata de acumular sem limite, mas de respeitar ciclos, reciprocidade, pluralidade de saberes.

Alberto Acosta e outros mostram como Buen Vivir se tornou um eixo de crítica ao “desenvolvimento” clássico e marcou a Constituição do Equador com direitos da natureza e uma visão biocêntrica.
Eu vejo o Bem-Viver Metabólico como uma ponte:
  • entre o rigor dos limites planetários,

  • a crítica da economia ecológica ao fetiche do crescimento infinito,

  • e as cosmopolíticas ameríndias de Bem Viver, onde corpo, território e espiritualidade formam um só sistema.




Consciência em Primeira Pessoa e Zona 2: o metabolismo interior

Se a economia é metabolismo social, a Consciência em Primeira Pessoa é metabolismo interior:
  • a Mente Damasiana é o encontro entre interocepção (como o corpo sente por dentro) e propriocepção (como o corpo está e se move);

  • cada “eu” é um eu tensional, um padrão de metabolismo existencial que aprendemos para dar conta de certas tarefas, papéis, crenças e lutas.

Quando uma economia exige:
  • jornadas exaustivas,

  • trajetos longos,

  • insegurança alimentar,

  • múltiplos empregos,

  • hiperconexão digital,

  • endividamento permanente,

ela está empurrando milhões de corpos para uma Zona 3 crônica, onde:
  • a atenção vive colapsada entre urgências;

  • o sono não recupera;

  • a criatividade vira sobrevivência;

  • e a interocepção passa a sinalizar perigo o tempo todo.

Bem-Viver Metabólico, ao contrário, é quando:
  • a organização econômica permite janelas amplas de Zona 2: fruição, aprendizado, contemplação, prática artística, convivência não utilitarista;

  • isso não é luxo, é infraestrutura da consciência — condição para criatividade, senso crítico, empatia, projeto de futuro.

Por isso, pra mim:
falar de Bem-Viver Metabólico é fazer política econômica desde o corpo.
É perguntar: como anda o pulso, o sono, a respiração e a esperança de quem sustenta essa economia?


Degrowth, pós-crescimento e o “não” ao PIB como deus

A pauta do decrescimento (degrowth) aparece exatamente nessa encruzilhada:
  • reconhece que não há como sustentar crescimento material infinito em um planeta finito;

  • questiona a ideia de “desacoplamento verde” total entre PIB e impacto ecológico;

  • e propõe reduzir fluxos de energia e matéria nos países ricos, combinando justiça ecológica e social.

Não se trata de recessão imposta, mas de uma transição planejada para uma economia:
  • mais leve em throughput ecológico,

  • mais densa em vínculos, cuidados, cultura, ciência, arte.

Eu leio o degrowth a partir do meu vocabulário assim:
  • menos pressão metabólica destrutiva sobre o bioma;

  • mais espaço metabólico interno para a Zona 2;

  • menos “eus tensionais” moldados pela escassez e pela competição;

  • mais “eus tensionais” moldados pela cooperação, pela fruição e pelo pertencimento.

Bem-Viver Metabólico é o nome que eu dou a essa convergência:
  • Buen Vivir + Degrowth + limites planetários + Mente Damasiana

  • tudo isso costurado na pergunta: “como fica o corpo?”




E o Chile no meio disso?

Quando eu trago tudo isso para uma Constituição chilena, eu vejo um país:
  • atravessado por biomas extremos (deserto, cordilheira, mar, floresta);

  • estruturado historicamente por economias extrativas (cobre, lítio, pesca, florestas plantadas);

  • com desigualdades profundas e conflitos territoriais com povos originários.

A pergunta metabólica é direta:
O modelo econômico atual consegue manter o Chile dentro de um espaço seguro para os seus biomas e, ao mesmo tempo, garantir Zona 2 para a maioria dos corpos?
Se a resposta honesta for “não” — e tudo indica que é — então:
  • seguir medindo sucesso só com PIB é insistir num metabolismo suicida;

  • seguir tratando natureza como “recurso” é negar o Direito ao Corpo-Território;

  • seguir empurrando famílias para o endividamento é corroer, por dentro, qualquer ideia de futuro comum.

Uma Constituição que leve o Bem-Viver Metabólico a sério precisa:
  • reconhecer limites ecológicos como condições de possibilidade da economia;

  • incorporar indicadores de bem-estar metabólico (saúde, tempo livre, acesso à natureza, segurança econômica básica);

  • vincular política fiscal, monetária e de crédito à proteção do bioma e da Zona 2 dos corpos.




Uma proposta de artigo constitucional (rascunho em espanhol)

Artículo X – Economía para el Buen Vivir Metabólico
  1. La economía se reconoce como un metabolismo social que depende de la integridad de los biomas y del bienestar físico, mental y espiritual de las personas y comunidades.

  2. El Estado orientará su política económica a garantizar el Buen Vivir Metabólico: la satisfacción de las necesidades básicas, la reducción de las desigualdades, el acceso efectivo al tiempo libre, a la naturaleza y al cuidado, dentro de los límites ecológicos del país y del planeta.

  3. Las políticas fiscal, monetaria, financiera y productiva deberán respetar los límites biofísicos y contribuir a mantener la operación de la sociedad dentro de un espacio ecológicamente seguro y socialmente justo, evitando la sobre-explotación de la naturaleza y el sobreendeudamiento de los hogares.

  4. El Estado desarrollará indicadores alternativos al crecimiento del PIB para evaluar el éxito económico, integrando dimensiones ecológicas, sociales, culturales y de salud, y los utilizará de forma preferente en la planificación y evaluación de las políticas públicas.

  5. Las comunidades, en particular los pueblos originarios, tendrán derecho a participar en la definición de los ritmos y modos del metabolismo económico en sus territorios, de manera coherente con sus propias formas de Buen Vivir y con la protección de los cuerpos-territorios.




Sugestões de leitura comentadas

  1. Herman Daly – “Economics in a Full World” (2005)
    Um dos textos clássicos da economia em estado estacionário, argumentando que, num planeta cheio, continuar perseguindo crescimento pode gerar mais dano do que benefício.

    Buscar por: “Herman Daly Economics in a Full World Scientific American 2005”


  2. Johan Rockström et al. – “A safe operating space for humanity” (2009)
    Artigo que apresenta o quadro dos limites planetários, definindo processos críticos e fronteiras que não deveríamos ultrapassar se quisermos manter estabilidade do sistema Terra.

    Buscar por: “Rockstrom 2009 safe operating space for humanity Nature planetary boundaries”


  3. Kate Raworth – “A Safe and Just Space for Humanity” (2012) e “Doughnut Economics” (2017)
    Propõe o diagrama do donut, unindo limites ecológicos e base social mínima para pensar uma economia que caiba no planeta e atenda pessoas.

    Buscar por: “Kate Raworth safe and just space for humanity doughnut economics 2017”


  4. Alberto Acosta – textos sobre Buen Vivir / Sumak Kawsay
    Um dos principais formuladores do Buen Vivir como alternativa ao desenvolvimento, ligando direitos da natureza, cosmovisões andinas e crítica ao extrativismo.

    Buscar por: “Alberto Acosta Buen Vivir Sumak Kawsay 04 Buen Vivir rethinking the world”


  5. Ashish Kothari – “Buen Vivir, Degrowth and Ecological Swaraj” (2014)
    Mostra afinidades entre Buen Vivir, decrescimento e Ecological Swaraj na Índia, como alternativas ao desenvolvimento e à “economia verde” que mantém o mesmo metabolismo destrutivo.

    Buscar por: “Kothari 2014 Buen Vivir Degrowth Ecological Swaraj alternatives to sustainable development”


  6. Viviana Asara et al. – “Socially sustainable degrowth as a social–ecological transformation” (2015)
    Editorial que explica o decrescimento como transformação socioecológica, repolitizando a sustentabilidade e questionando a ideia de crescimento verde infinito.

    Buscar por: “Asara Otero Demaria Corbera 2015 socially sustainable degrowth sustainability science”


  7. John Bellamy Foster – “Marx’s Theory of Metabolic Rift” (1999)
    Texto fundamental para entender o conceito de rasgo metabólico, articulando Marx, metabolismo social e crise ecológica sob o capitalismo.

    Buscar por: “John Bellamy Foster Marx’s Theory of Metabolic Rift American Journal of Sociology 1999”


  8. K. Richter – “Insights from Buen Vivir / sumak kawsay for the cultural change in sustainability transformations” (2025)
    Artigo recente que cria um diálogo inter-epistêmico entre degrowth e Buen Vivir, pensando transformações culturais não antropocêntricas e desindividualizadas.

    Buscar por: “Richter 2025 Insights from Buen Vivir sumak kawsay cultural change sustainability transformations”






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Jackson Cionek

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