Retirando Satanás da Sala
Retirando Satanás da Sala
Série: Respiração, Corpo, Consciência e Troca dos Eus Tensionais
Introdução — Brain Bee (consciência em primeira pessoa)
Às vezes, entro numa sala e algo pesa.
Não é o ambiente.
Não são as pessoas.
Sou eu — mas não exatamente “eu”.
Meu corpo está tenso demais para a situação.
Minha respiração curta.
Meu coração previsível.
Percebo então:
há um Eu aqui que não escolhi conscientemente.
É isso que, neste texto, chamo de Satanás na sala.
Satanás como metáfora fisiológica, não moral
Aqui, “Satanás” não é entidade, pecado ou oposição espiritual.
É uma metáfora funcional:
o Eu Tensional sequestrado por ideologias, crenças ou narrativas rígidas.
Esse Eu:
ocupa o corpo,
fixa a respiração,
empobrece a variabilidade,
silencia o sentir.
Ele não é mau.
Ele é excessivamente dominante.
Zona 3: quando o corpo perde a variação
Na Zona 3, o corpo:
mantém tensão contínua,
sustenta respiração rígida,
reduz HRV e RMSSD,
perde acesso à interocepção e à propriocepção finas.
A consciência fica estreita.
O corpo reage antes de perceber.
A narrativa governa o ritmo fisiológico.
Nesse estado, o Eu Tensional:
acredita estar certo,
sente-se ameaçado,
defende-se o tempo todo.
Esse é o “Satanás” —
não por maldade, mas por perda de liberdade corporal.
O ponto central: a fisiologia é a mesma
Aqui está o aspecto mais importante:
Zona 1, Zona 2 e Zona 3 acontecem sobre a mesma fisiologia respiratória básica.
O que muda não é o pulmão.
É como o corpo usa a respiração.
Na Zona 3:
a respiração sustenta rigidez sem escolha.Na Zona 2:
a respiração permite variação, escuta e regulação.Na Zona 1:
a respiração sustenta tensão por escolha consciente.
Não há troca de sistema.
Há troca de relação com o mesmo sistema.
Zona 2: regulação sem colapso
Na Zona 2:
a expiração recupera espaço,
o RMSSD sobe,
o nervo vago atua,
o sentir retorna.
Aqui, o corpo:
não nega a tensão,
não foge da ação,
mas recupera a possibilidade de variar.
É o estado de fruição, presença e reorganização.
Não é passividade.
É liberdade fisiológica.
Zona 1: tensionar por escolha
A Zona 1 não é problema.
Ela é necessária para:
agir,
trabalhar,
decidir,
proteger.
A diferença é que, aqui:
a tensão é assumida conscientemente,
a respiração se ajusta ao objetivo,
o corpo sabe que poderá voltar.
Zona 1 saudável não aprisiona.
Ela serve e se despede.
Fé como mecanismo corporal (Yãy hã mĩy)
O conceito de Yãy hã mĩy, de origem no povo Maxakali, descreve originalmente:
o ato de imitar-se ser aquilo que se pretende tornar —
um processo corporal, não apenas simbólico.
Em sentido ampliado, a fé funciona assim:
o corpo sustenta um modo de ser,
a respiração acompanha,
a postura confirma,
o Eu se organiza.
Quando a fé:
amplia variação → ela liberta.
fixa o corpo → ela aprisiona.
A diferença não está na crença,
mas no efeito corporal da crença.
Liberdade de expressão como exigência biológica
Liberdade de expressão, aqui, não é slogan político.
É necessidade do DNA.
O corpo precisa:
variar tensões,
sinalizar necessidades,
mudar de ritmo,
reorganizar metabolismo.
Quando ideologias, crenças ou culturas:
proíbem sentir,
bloqueiam movimento,
exigem rigidez constante,
o corpo se defende fixando Eus tensionais.
O “Satanás” nasce da repressão da variação,
não da presença do conflito.
Retirar Satanás da sala não é expulsar ninguém
Não se trata de eliminar Eus tensionais.
Eles são necessários.
Trata-se de:
retirar o monopólio,
devolver o corpo à possibilidade de escolha,
permitir alternância entre zonas.
Quando isso ocorre:
a respiração se solta,
o coração varia,
o sentir retorna,
a consciência se amplia.
Nada místico.
Nada violento.
Apenas fisiologia recuperando liberdade.
Reconhecendo o momento da troca
Perguntas simples:
Estou tenso sem saber por quê?
Minha respiração poderia variar mais?
Posso sair da defesa sem desaparecer?
Posso agir sem me aprisionar?
Quando essas perguntas surgem,
o “Satanás” já começou a sair da sala.
Fechamento — o encerramento da série
“Satanás” é o nome que damos
quando esquecemos que o corpo pode variar.
Zona 3 não é pecado.
Zona 1 não é virtude.
Zona 2 não é fuga.
São modos corporais de existir.
A verdadeira fé não fixa.
A verdadeira consciência não aprisiona.
A verdadeira liberdade é poder variar.
Respirar, sentir, tensionar e soltar —
por escolha.
Este texto faz parte da série Respiração, Corpo, Consciência e Troca dos Eus Tensionais, onde diferentes aspectos do mesmo sistema vivo são abordados por ângulos complementares.
Referências (pós-2020)
Thayer, J. F., & Lane, R. D. (2021). Neurovisceral Integration and Self-Regulation. Biological Psychology.
→ Fundamenta a relação entre variabilidade autonômica, rigidez e flexibilidade do self corporal.
Laborde, S., et al. (2022). HRV as a Marker of Self-Regulatory Capacity. Biological Psychology.
→ Relaciona HRV e RMSSD à capacidade de alternar estados sem colapso.
Seth, A. K. (2021). Being You: A New Science of Consciousness. Faber & Faber.
→ Sustenta a consciência como processo corporal preditivo, não abstrato.
Berntson, G. G., & Khalsa, S. S. (2021). Interoception and Autonomic Regulation. Trends in Cognitive Sciences.
→ Mostra como sentir corporal regula estados de consciência.
Mashour, G. A., & Hudetz, A. G. (2021). Disconnecting Consciousness. Trends in Cognitive Sciences.
→ Analisa como estados rígidos alteram integração consciente.
Critchley, H. D., & Garfinkel, S. N. (2021). Interoception and Emotion. Current Opinion in Psychology.
→ Relaciona interocepção à liberdade de resposta emocional.
Porges, S. W. (2021). Polyvagal Theory: A Science of Safety. Frontiers in Integrative Neuroscience.
→ Fundamenta a segurança corporal como pré-requisito para variação autonômica.
Varela, F. J., et al. (edições recentes). The Embodied Mind. MIT Press.
→ Sustenta a cognição como experiência corporificada, alinhada à noção de Taa e variação.
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