Jackson Cionek
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O Brasil precisa produzir mais ou viver melhor? Eleições 2026 Presidente

O Brasil precisa produzir mais ou viver melhor? Eleições 2026 Presidente

Emprego, salário, comida, impostos, inflação, crédito e custo de vida fazem da economia uma das questões centrais das Eleições 2026.

Quando alguém pesquisa o plano de governo de um candidato à Presidência, raramente está pensando apenas em PIB, déficit fiscal ou dívida pública.

A pergunta costuma ser muito mais concreta.

Meu salário vai comprar mais?

Vou conseguir trabalho?

A comida ficará mais acessível?

Minha empresa conseguirá continuar aberta?

Meus filhos terão melhores oportunidades?

Todas essas perguntas são fundamentais.

Mas queremos acrescentar uma questão que se tornará cada vez mais difícil de evitar em um planeta submetido a mudanças climáticas, perda de biodiversidade e aumento da extração de recursos.

O Brasil precisa continuar produzindo cada vez mais ou precisa aprender a produzir melhor aquilo que realmente amplia as possibilidades de vida?

É dessa pergunta que surge o conceito que chamamos de Produção de Excesso.

Este artigo não determina qual candidato a Presidência possui a melhor proposta econômica e não recomenda voto. Primeiro apresentamos, de maneira resumida, o que cada plano propõe. Depois acrescentamos a leitura da BrainLatam a partir de Corpo-Território, Neurociência Decolonial e Produção de Excesso.

O que os candidatos a Presidência propõem para a economia nas Eleições 2026

Os candidatos a Presidência apresentam modelos bastante diferentes para o Brasil. Há propostas de maior participação do Estado, privatizações, redução de impostos, aumento de salários, estatizações, reformas fiscais e até ruptura com o capitalismo. (Folha de S.Paulo)

Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à Presidência pelo PT

Lula propõe manter o Estado como indutor do desenvolvimento, fortalecer serviços públicos e programas de renda e combinar planejamento econômico com sustentabilidade e transição ecológica de baixo carbono. Seu programa econômico também mantém o atual arcabouço fiscal e prevê investimento público em infraestrutura e indústria. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: se o desenvolvimento será de baixo carbono, além do crescimento do PIB poderíamos medir quanto de água, solo, biodiversidade e capacidade territorial permanece disponível para as próximas gerações.

Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL

Flávio Bolsonaro propõe contenção de gastos públicos, desburocratização, desoneração tributária, redução da máquina estatal e retomada de concessões e privatizações. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: eficiência econômica não precisa ser calculada apenas em reais. Uma atividade pode reduzir custos financeiros hoje enquanto transfere para o futuro custos ambientais, climáticos e sociais.

Romeu Zema, candidato à Presidência pelo Novo

Romeu Zema propõe redução ampla da participação do Estado, privatização de estatais, corte de gastos, redução de impostos e flexibilização das leis trabalhistas. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: o mercado é capaz de atribuir preço a muitos bens. O Corpo-Território pergunta o que acontece com aquilo cujo valor só se torna evidente depois que começa a faltar, como água limpa, solo fértil ou estabilidade climática.

Ronaldo Caiado, candidato à Presidência pelo PSD

Ronaldo Caiado prioriza estabilização fiscal, contenção de despesas obrigatórias, modernização do agronegócio e transição dos programas sociais em direção a maior autonomia financeira dos beneficiários. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: produtividade agrícola poderia incluir não apenas quanto se produz por hectare, mas também quanto daquele território continua capaz de produzir daqui a vinte ou cinquenta anos.

Renan Santos, candidato à Presidência pelo Missão

Renan Santos propõe forte ajuste nas contas públicas, reorganização federativa, redução de municípios considerados fiscalmente inviáveis e substituição do Bolsa Família por frentes de trabalho. Também apresenta exploração de terras raras e expansão tecnológica como componentes de sua estratégia. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: uma unidade administrativa não é apenas arrecadação e despesa. Os Municípios também concentram relações, memórias, serviços, deslocamentos e pertencimento. Eficiência fiscal e continuidade territorial precisam ser observadas juntas.

Augusto Cury, candidato à Presidência pelo Avante

Augusto Cury propõe déficit zero, ampliação do microempreendedorismo, expansão sustentável do agronegócio e exploração de minerais estratégicos. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: a palavra sustentável exige indicadores. Quando uma expansão deixa de ser sustentável? Apenas saberemos se acompanharmos simultaneamente produção e capacidade de regeneração do território.

Clariana Barão, candidata à Presidência pela DC

Clariana Barão apresenta apoio aos pequenos negócios, melhoria da infraestrutura e responsabilidade fiscal como pilares econômicos. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: além de saber quanto um negócio produz, poderíamos medir quanto da riqueza gerada continua circulando na comunidade em que essa produção ocorre.

Edmilson Costa, candidato à Presidência pelo PCB

Edmilson Costa propõe ruptura com o capitalismo, nacionalização do sistema financeiro, expropriação do grande agronegócio, suspensão do pagamento da dívida pública e revogação do arcabouço fiscal. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: mudar quem controla a produção responde a uma questão distributiva. Corpo-Território acrescenta outra: quanto qualquer sistema produtivo, estatal, privado ou comunitário pode extrair sem comprometer a continuidade do território?

Hertz Dias, candidato à Presidência pelo PSTU

Hertz Dias propõe estatização de bancos, agronegócio e grandes empresas sob controle dos trabalhadores, suspensão do pagamento da dívida, aumento do salário mínimo e fim da escala 6x1. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: distribuição não envolve apenas dinheiro. Envolve também tempo, exposição à poluição, acesso à água, mobilidade, descanso e capacidade de permanecer no próprio território.

Rui Costa Pimenta, candidato a Presidencia pelo PCO

Rui Costa Pimenta propõe estatização do sistema financeiro, não pagamento da dívida pública, cancelamento de privatizações, imposto sobre grandes fortunas e aumento expressivo do salário mínimo. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: propriedade e limite ecológico são problemas diferentes. Uma mina continua retirando matéria do território independentemente de pertencer ao Estado, a investidores ou aos trabalhadores.

Samara Martins, candidata à Presidência pela Unidade Popular

Samara Martins propõe estatização de bancos e empresas privatizadas, interrupção do pagamento da dívida pública, aumento do salário mínimo, fim da escala 6x1 e redução da carga tributária sobre os trabalhadores. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: há um recurso que nenhuma política monetária consegue produzir novamente: tempo de vida. Uma economia também poderia ser avaliada pela quantidade de tempo que deixa disponível para cuidado, família, comunidade, descanso e participação social.

Wilson Grassi, candidato a Presidencia pelo Democrata

Wilson Grassi propõe desburocratização, desoneração e digitalização do Estado. Seu eixo tributário central é um Imposto Único Federal sobre transações financeiras, substituindo tributos incidentes sobre a folha. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: um sistema tributário poderia também discutir formas diferentes de tratar atividades que degradam capacidades ambientais e aquelas que contribuem para mantê-las.

Pablo Marçal, candidato a Presidencia pelo PRTB

Pablo Marçal registrou candidatura, mas até o levantamento publicado em 18 de agosto nenhum plano de governo do PRTB havia sido registrado na plataforma oficial do TSE. Por isso, não atribuímos a ele uma proposta econômica que ainda não possa ser verificada. (Folha de S.Paulo)

Modelos diferentes, uma pergunta quase ausente

As respostas dos candidatos são profundamente diferentes.

Mas quase todas partem da necessidade de gerar prosperidade, emprego, renda e capacidade produtiva.

A BrainLatam acrescenta uma questão anterior.

Existe um ponto em que produzir mais deixa de significar viver melhor?

O Panorama Global de Recursos 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, informa que a extração mundial de recursos naturais triplicou nas últimas cinco décadas. Sem uma mudança de trajetória, ela pode crescer aproximadamente 60 por cento entre 2020 e 2060. O relatório relaciona essa expansão ao agravamento dos riscos climáticos, à perda de biodiversidade, à poluição e à redução do bem-estar. (UNEP - UN Environment Programme)

Isso não significa que toda nova produção seja indesejável.

O Brasil ainda precisa produzir mais saneamento, moradia digna, hospitais, transporte, alimentos, ciência, energia limpa e infraestrutura.

A pergunta é outra.

Tudo precisa crescer para sempre?

Produção de Excesso

Chamamos de Produção de Excesso uma proposta conceitual da BrainLatam para observar uma economia que passa a depender da expansão contínua de produção, consumo, crédito, extração e circulação apenas para manter sua própria dinâmica.

Não é um conceito econômico consensual nem uma conclusão já demonstrada pela neurociência.

É uma hipótese para investigação.

Uma casa utiliza areia, cimento, metais, energia e água.

Um carro utiliza minerais.

Um celular depende de mineração.

Um alimento depende de solo, água e clima.

Um data center precisa de energia, equipamentos e sistemas de refrigeração.

Até aquilo que chamamos de economia digital possui um corpo material.

Toda produção finalmente encontra um território.

A América Latina já questiona o crescimento sem limites

Essa discussão não precisa ser importada apenas da Europa ou dos Estados Unidos.

A socióloga argentina Maristella Svampa tem desenvolvido, depois de 2021, uma produção importante sobre transição ecosocial, extrativismo, lítio e o risco de uma transição energética que apenas substitua uma forma de pressão territorial por outra. Seu trabalho de 2023 discute os dilemas da transição ecosocial a partir da América Latina, e em 2024 aborda lítio e colonialismo energético. (CONICET)

Essa perspectiva é especialmente importante para o Brasil.

Mesmo uma economia verde pode reproduzir Produção de Excesso se sua solução for apenas trocar petróleo por volumes crescentes de minerais, energia e infraestrutura sem discutir limites materiais.

O pensador indígena brasileiro Ailton Krenak, em Futuro Ancestral, publicado em 2022, questiona a ideia de humanidade separada da natureza. Em uma conferência realizada na Unicamp em 2023, Krenak relacionou a crise ambiental aos modelos contemporâneos de desenvolvimento e chamou atenção para a necessidade de recuperar uma relação mais profunda entre vida, território e ancestralidade. (SciELO)

O pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, Nego Bispo, publicou em 2023 A terra dá, a terra quer. Sua reflexão parte dos modos de vida quilombolas e das relações entre comunidade, terra e compartilhamento, oferecendo uma referência brasileira para pensar economia sem reduzir território a recurso disponível para extração.

O antropólogo colombiano Arturo Escobar também retomou, em trabalhos publicados em 2022, a ideia de políticas pluriversais e de interdependência radical. Sua proposta questiona a existência de um único modelo universal de desenvolvimento e coloca a produção da vida e dos mundos locais no centro da discussão. (Oulun yliopiston julkaisuarkisto)

Esses autores não dizem a mesma coisa.

E nenhum deles é apresentado aqui como prova do modelo Corpo-Território.

O que eles demonstram é que a América Latina possui pensamento próprio para discutir desenvolvimento, território, vida e limites ecológicos.

Neurociência Decolonial e economia

Pode parecer estranho aproximar economia e neurociência.

Mas economia é também decisão humana.

Escolhemos consumir.

Poupar.

Esperar.

Assumir riscos.

Aceitar uma recompensa imediata ou esperar por outra futura.

Pesquisadores do Instituto de Neurociências da Universidade de Guadalajara, no México, publicaram em 2022 um estudo com EEG mostrando que condições de recompensa e punição modificaram tanto o comportamento quanto padrões de atividade cortical durante uma tarefa de tomada de decisão. Os autores encontraram respostas mais rápidas sob recompensa e padrões eletrofisiológicos diferentes entre as duas condições. (PubMed)

Isso não demonstra que um sistema econômico baseado em consumo esteja errado.

Mostra algo mais cuidadoso.

Valor e escolha também passam pela percepção humana.

No Brasil, pesquisadores da UFABC, USP e ITA publicaram em 2022 um estudo com fNIRS hyperscanning, registrando simultaneamente atividade cortical de professor e criança durante interação social. O trabalho mostra como a neurociência pode sair metodologicamente do cérebro isolado e observar organismos em relação. (PubMed)

Para a Neurociência Decolonial, isso abre uma pergunta.

Se nossas decisões econômicas acontecem dentro de relações, culturas, histórias e territórios, por que continuar tratando o agente econômico apenas como um indivíduo abstrato que maximiza benefícios?

A mesma renda não significa a mesma possibilidade de vida

Duas pessoas podem receber o mesmo salário.

Uma mora perto do trabalho.

A outra passa quatro horas por dia em transporte.

Uma possui água de qualidade.

A outra precisa comprá-la.

Uma vive em um bairro arborizado.

A outra enfrenta calor extremo.

Uma possui escola e saúde próximas.

A outra atravessa a cidade para acessá-las.

Monetariamente, as duas podem pertencer à mesma faixa de renda.

Territorialmente, não possuem a mesma riqueza.

Corpo-Território não propõe abandonar renda, PIB ou produtividade.

Propõe acrescentar aquilo que esses indicadores não conseguem enxergar sozinhos.

Talvez precisemos crescer aquilo que sustenta a vida

A discussão não precisa ser simplesmente crescimento contra decrescimento.

Podemos fazer uma pergunta mais útil.

O que precisa crescer?

Saneamento precisa crescer.

Conhecimento precisa crescer.

Saúde precisa melhorar.

Moradia digna precisa aumentar.

Restauração de biomas pode crescer.

Eficiência energética pode crescer.

Liberdade e tempo disponível podem crescer.

Ao mesmo tempo, podemos perguntar se desperdício, obsolescência, degradação e extração precisam crescer na mesma velocidade.

Essa é a provocação da Produção de Excesso.

Uma pergunta para todos os candidatos à Presidência nas Eleições 2026

Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Augusto Cury, Clariana Barão, Edmilson Costa, Hertz Dias, Rui Costa Pimenta, Samara Martins e Wilson Grassi apresentam modelos econômicos profundamente diferentes.

Pablo Marçal deverá ser incluído nesta comparação quando houver proposta oficial verificável.

Não precisamos decidir aqui qual deles possui a resposta correta.

Podemos fazer a mesma pergunta a todos:

Depois de quatro anos, o Brasil terá produzido mais riqueza monetária. Mas seus territórios também estarão mais capazes de sustentar a vida?

E uma segunda:

Se uma atividade gera dinheiro hoje, mas reduz água, solo, biodiversidade ou capacidade produtiva futura, onde essa perda aparece na conta?

Talvez uma economia preparada para o futuro não seja aquela que simplesmente transforma cada vez mais território em dinheiro.

Talvez seja aquela capaz de usar dinheiro, tecnologia e conhecimento para ampliar as possibilidades de vida sem destruir as condições que tornam essas possibilidades existentes.

Essa pergunta nos levará ao próximo passo da série.

Se manter um bioma vivo produz valor para toda a sociedade, por que esse valor continua quase invisível para quem mantém o território vivo?

É a partir daí que começaremos a discutir o Rendimento Bioma.

Referências

Folha de S.Paulo. Candidatos a Presidencia e síntese dos planos de governo registrados para as Eleições 2026. 2026. (Folha de S.Paulo)

Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Panorama Global de Recursos 2024. (UNEP - UN Environment Programme)

Svampa, Maristella. Dilemas de la transición ecosocial desde América Latina. 2023. Thinking about Ecosocial Transition: Lithium and Energy Colonialism. 2024. Registros de produção do CONICET. (CONICET)

Krenak, Ailton. Futuro Ancestral. 2022. Discussão sobre sustentabilidade, ancestralidade e desenvolvimento na Unicamp, 2023. (SciELO)

Santos, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. 2023. Discussão sobre saberes e modos de vida quilombolas.

Escobar, Arturo, Tornel, Carlos e Lunden, Aapo. On design, development and the axes of pluriversal politics. 2022. (Oulun yliopiston julkaisuarkisto)

Iribe-Burgos, Fabiola Alejandra et al. Effect of reward and punishment on no-risk decision-making in young men: An EEG study. Brain Research. Universidade de Guadalajara, México. 2022. (PubMed)

Oku, Amanda Yumi Ambriola et al. Applications of graph theory to the analysis of fNIRS data in hyperscanning paradigms. Frontiers in Computational Neuroscience. Pesquisadores da UFABC, ITA e USP, Brasil. 2022. (PubMed)














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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States