Jackson Cionek
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Sexualidade, Corpo-Território e liberdade de expressão da vida

Sexualidade, Corpo-Território e liberdade de expressão da vida

Como reconhecer diferenças sem transformar biologia, identidade ou ideologia em uma nova prisão?

Antes de aprender palavras como “homem”, “mulher”, “masculino”, “feminino”, “gênero” ou “sexualidade”, uma criança já vive transformações corporais, afetivas e relacionais.

Existem cromossomos, genes, hormônios, órgãos e processos de desenvolvimento. Mas também existem alimentação, vínculos, linguagem, expectativas familiares, brincadeiras, religião, escola, território e formas coletivas de reconhecer uma pessoa.

Vamos começar sem escolher rapidamente um dos lados:

A biologia determina antecipadamente quem alguém será ou oferece possibilidades que continuam encontrando o território durante toda a vida?

Talvez a própria oposição entre “biológico” e “social” já nos faça perder parte do fenômeno. Afinal, onde termina o desenvolvimento do corpo e começa a cultura? Quando uma palavra modifica a postura, quando uma proibição altera a respiração ou quando o medo reorganiza a forma de habitar um espaço, ainda estamos diante de dimensões separadas?

A NeuroEducação do Weichö propõe outra formulação:

O DNA participa das possibilidades da vida, enquanto o Corpo-Território participa continuamente de sua expressão, experiência e transformação.

O desenvolvimento sexual não possui uma única chave

O desenvolvimento sexual humano envolve diferentes processos: cromossomos, expressão gênica, diferenciação das gônadas, hormônios, receptores, anatomia e transformações que continuam depois do nascimento.

Essas dimensões geralmente se organizam em padrões reconhecíveis. Entretanto, não formam uma sequência única capaz de determinar automaticamente identidade, afetividade, comportamento e futuro.

Os pesquisadores brasileiros Rafael Loch Batista e Luciana Mattos Barros Oliveira revisaram, em 2024, estudos sobre fatores genéticos, hormonais e neurobiológicos relacionados à identidade de gênero. A revisão não identifica um “gene da identidade”, mas descreve um fenômeno complexo, no qual diferentes dimensões biológicas e desenvolvimentais precisam ser investigadas sem explicações simplistas. (PubMed)

Também sabemos que a diferenciação sexual envolve mecanismos epigenéticos. Metilação do DNA, modificações de histonas e regulação da cromatina participam da ativação e inibição de genes envolvidos no desenvolvimento das gônadas. Isso não significa que experiências sociais possam modificar livremente qualquer característica corporal. Significa que a própria biologia funciona por redes regulatórias, e não por uma ordem isolada gravada em um único gene. (ScienceDirect)

Podemos então perguntar juntos:

Reconhecer a importância da biologia exige transformar a biologia em sentença?

Uma categoria pode cuidar — ou aprisionar

Sexo, identidade de gênero, expressão de gênero e orientação sexual procuram descrever dimensões diferentes da experiência humana.

Essas categorias podem ser importantes. Elas ajudam a organizar pesquisas, orientar cuidados de saúde, tornar sofrimentos visíveis e garantir direitos.

Mas observemos o que acontece quando a categoria deixa de servir à pessoa e a pessoa passa a servir à categoria.

Ela pode começar a determinar:

  • como alguém deve vestir-se;

  • quais movimentos são permitidos;

  • quais emoções pode demonstrar;

  • quem poderá amar;

  • que trabalho deverá exercer;

  • qual lugar ocupará na família;

  • que futuro poderá imaginar.

A NeuroEducação do Weichö não propõe eliminar todos os nomes. Propõe que pensemos sobre aquilo que os nomes fazem.

O que esta categoria nos ajuda a perceber? O que ela esconde? A pessoa se reconhece nela? Ela pode contestá-la sem perder cuidado, dignidade e pertencimento?

O Weichö não nega as diferenças. Impede que uma diferença seja confundida com a totalidade da vida.

Quando conhecer alguém transforma quem conhece

Vamos imaginar que uma pessoa descreva seu corpo, sua sexualidade ou sua identidade com palavras diferentes das que aprendemos.

Qual seria nosso primeiro movimento?

Talvez tentemos encaixá-la rapidamente em uma classificação. Talvez rejeitemos suas palavras. Mas também podemos permanecer um pouco mais no encontro e perguntar:

O que ainda não conseguimos perceber porque estamos tentando traduzir essa vida depressa demais?

É aqui que a Multiplicação Dialógica, proposta pelo psicólogo brasileiro Danilo Silva Guimarães, pode transformar a própria forma de produzir conhecimento.

Em Dialogical Multiplication: Principles for an Indigenous Psychology, Guimarães parte dos limites encontrados quando teorias psicológicas construídas a partir de sociedades europeias são aplicadas como se fossem universais a comunidades que concebem pessoa, corpo, relação e mundo de outras maneiras. A proposta não é simplesmente acrescentar “conteúdos indígenas” a uma psicologia já pronta, mas permitir que o encontro transforme os conceitos e os métodos da própria psicologia. (Springer)

Em trabalhos de 2022, Guimarães alerta para a violência epistêmica produzida quando conhecimentos culturalmente situados são tratados como verdades universais. Também questiona a metodolatria: o momento em que o método deixa de ser uma ferramenta e passa a decidir antecipadamente quais experiências merecem existir cientificamente. (Repositório da Produção USP)

Talvez possamos aplicar essa reflexão ao nosso tema:

Estamos usando uma categoria para cuidar da pessoa ou tentando fazer a pessoa caber na categoria para proteger nosso próprio modo de pensar?

Em uma relação dialógica, quem pesquisa não permanece intacto.

Eu observo você.
Você percebe que está sendo observado.
Você descreve sua experiência.
Sua descrição modifica minha pergunta.
A nova pergunta permite que ambos percebamos algo que antes não estava disponível.

Isso é agência compartilhada: o conhecimento não chega pronto ao encontro. Ele é transformado por quem participa dele.

Antes da colonização, existiam outros modos de produzir pessoas

A colonização das Américas não ocupou apenas terras. Ela também reorganizou corpos, famílias, relações, papéis sociais e formas de pertencimento.

Jean Tiago Baptista e Tony Willian Boita analisaram mais de mil documentos jesuíticos, além de vestígios arquitetônicos e artísticos das missões sul-americanas. O estudo, publicado em 2024, mostra como categorias cristãs e europeias de gênero e sexualidade foram utilizadas para reorganizar corpos indígenas que anteriormente eram produzidos por outras redes familiares, coletivas e territoriais. (Nature)

Isso não significa que todas as sociedades originárias fossem iguais, livres de hierarquias ou automaticamente acolhedoras. As Américas pré-colombianas continham enorme pluralidade de povos, conflitos, cosmologias e organizações sociais.

O que podemos sustentar é mais cuidadoso:

As formas coloniais de organizar corpo, família, autoridade, masculinidade, feminilidade e sexualidade não são as únicas formas humanas possíveis.

A arqueologia pode nos ajudar a perceber quanto nossas expectativas atuais são projetadas sobre o passado.

Em 2024, arqueólogas e arqueólogos que trabalham em Pañamarca, no Peru, anunciaram a descoberta de uma sala de trono Moche, provavelmente do século VII, com pinturas de uma figura feminina associada à autoridade. Marcas de desgaste no trono e materiais encontrados sobre ele indicam que o espaço foi realmente utilizado; o conjunto levou a equipe a considerar que uma mulher, ou uma linhagem de mulheres, possa ter exercido poder em Pañamarca. (Pañamarca Digital)

O achado não demonstra que toda a sociedade Moche fosse igualitária. Ele faz algo talvez mais importante: obriga-nos a rever a expectativa automática de que poder político, ritual e territorial sempre tenha sido masculino.

O passado pré-colombiano não entra como paraíso.

Entra como abertura para a pluralidade humana.

Corpo-Território: quando a violência atravessa pele e terra

Perspectivas feministas indígenas das Américas utilizam Corpo-Território para relacionar a violência praticada contra corpos à violência contra terras, comunidades, plantas, animais e formas coletivas de existência.

Carol Lynne D’Arcangelis e Lorna Quiroga mostram que colonialismo, patriarcado e extrativismo não operam como problemas separados. A violência contra a terra modifica alimentação, trabalho, vínculos, segurança, reprodução e futuro; a violência contra o corpo também enfraquece a possibilidade de defender e continuar o território. (Revista ANPHLAC)

Assim, liberdade sexual não pode significar apenas escolher uma palavra para definir a si mesmo.

Ela também depende de:

  • proteção contra violência e coerção;

  • direito à saúde e à informação;

  • segurança material;

  • autonomia corporal;

  • respeito à língua e à comunidade;

  • possibilidade de estabelecer vínculos sem medo;

  • direito de não ser convertido em mercadoria.

Antropólogas mexicanas como Edith Yesenia Peña Sánchez e Lilia Hernández Albarrán mostram que corpo e identidade hoje se encontram em uma disputa entre significados indígenas locais, o sistema sexo-gênero hegemônico e novas subjetividades que também circulam dentro do capitalismo global. (Revistas INAH)

Uma identidade pode abrir pertencimento e direitos. Também pode ser capturada por mercados, plataformas e disputas políticas que transformam a pessoa em perfil de consumo, segmento eleitoral ou representação permanente de uma categoria.

Podemos então perguntar:

Quando um nome amplia a liberdade e quando começa a limitar todos os movimentos futuros do Weichö?

O Corpo-Território 5D

Na interpretação BrainLatam de que A Consciência é Espacial, sexualidade, identidade e experiência corporal não estão alojadas em um único ponto do cérebro.

Elas participam de um Corpo-Território 5D:

  • três dimensões materiais;

  • movimento;

  • qualia.

As dimensões materiais incluem cérebro, órgãos, hormônios, outros corpos, objetos, arquitetura e território.

O movimento inclui desenvolvimento, aproximação, afastamento, transformação hormonal, aprendizagem, gestos, relações e deslocamentos sociais.

O qualia corresponde ao modo como aquela vida sente e reconhece seu próprio corpo, seus afetos, seus desejos, sua segurança e seu pertencimento.

Essa é uma interpretação teórica da BrainLatam, não uma conclusão diretamente comprovada pelas referências científicas.

O modelo não pretende substituir a biologia por uma nova metafísica. Ele oferece uma mesa comum para perguntarmos como matéria, transformação, experiência e território participam da mesma vida.

Liberdade de expressão da vida

Podemos agora elaborar juntos a tese deste blog:

Liberdade de expressão da vida não é obrigar alguém a negar sua biologia, nem transformar a biologia em destino. É criar condições para que cada Corpo-Território possa compreender, expressar e transformar sua existência sem ser reduzido a gene, órgão, diagnóstico, identidade ou ideologia.

Talvez a questão não seja escolher entre aceitar todas as categorias ou abandonar todas elas.

Talvez seja aprender a mantê-las abertas ao encontro.

A NeuroEducação do Weichö nos convida a perguntar:

Como reconhecer as diferenças necessárias ao cuidado e aos direitos sem transformar essas mesmas diferenças em fronteiras para os mundos que cada vida ainda pode criar?

Referências comentadas

Batista, R. L.; Oliveira, L. M. B. (2024). The Genetics and Hormonal Basis of Human Gender Identity.
A revisão brasileira reúne evidências sobre fatores genéticos, hormonais e neurobiológicos, mostrando que a identidade de gênero não pode ser explicada por um único gene ou mecanismo. (PubMed)

Guimarães, D. S. (2020). Dialogical Multiplication: Principles for an Indigenous Psychology.
A obra fundamental propõe que comunidades indígenas e interétnicas não sejam apenas objetos de análise, mas participantes capazes de transformar os próprios conceitos e métodos da psicologia. (Springer)

Guimarães, D. S. (2022). Indigenous Psychology as a General Science for Escaping the Snares of Psychological Methodolatry.
O artigo critica a transformação do método em autoridade absoluta e defende que a psicologia reveja seus pressupostos no encontro com diferentes mundos culturais. (Repositório da Produção USP)

Guimarães, D. S. (2022). A tarefa histórica da Psicologia Indígena diante dos 60 anos da regulamentação da psicologia no Brasil.
O texto mostra como conhecimentos culturalmente situados podem produzir violência epistêmica quando são apresentados como universais e propõe uma psicologia aberta à partilha entre diferentes perspectivas. (Repositório da Produção USP)

Peña Sánchez, E. Y.; Hernández Albarrán, L. (2023). Cuerpos e identidades: significados locales, sistema sexo-género, diversidad sexual y subjetividades fluidas.
As antropólogas mexicanas analisam o corpo como território de disputa entre significados indígenas, binarismos hegemônicos e novas identidades produzidas no capitalismo contemporâneo. (Revistas INAH)

D’Arcangelis, C. L.; Quiroga, L. (2023). Cuerpo-Territorio: Towards Feminist Solidarities in the Americas.
O artigo relaciona violência corporal, colonialismo, patriarcado, extrativismo e destruição territorial, mostrando que autonomia do corpo e defesa da terra não são questões separadas. (Revista ANPHLAC)

Baptista, J. T.; Boita, T. W. (2024). Indigenous Bodies, Gender, and Sexuality in the Jesuit Missions of South America.
O estudo demonstra como o projeto colonial cristão reorganizou concepções indígenas de corpo, gênero, família e sexualidade segundo padrões europeus. (Nature)

Kumar, C.; Roy, J. K. (2024). Decoding the Epigenetic Mechanism of Mammalian Sex Determination.
A revisão apresenta a diferenciação sexual como um processo regulatório complexo envolvendo fatores de transcrição, cromatina, metilação do DNA e RNAs não codificantes. (ScienceDirect)

Paisajes Arqueológicos de Pañamarca (2024). Descoberta da sala do trono de uma autoridade feminina Moche.
A descoberta peruana amplia as evidências de autoridade feminina no mundo Moche e questiona pressupostos modernos que associam automaticamente o poder antigo aos homens. (Pañamarca Digital)













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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States