Jackson Cionek
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Os Salvadores do Amanhã - extraterrestres, deuses e a promessa de uma existência superior

Os Salvadores do Amanhã - extraterrestres, deuses e a promessa de uma existência superior

O Homem de Barro espera por outro mundo. O Homem de Madeira segue a promessa. O Homem de Milho reconhece a vida que já está produzindo.

E se alguém prometesse salvar você?

Imagine que seu celular anuncie uma notícia extraordinária.

Uma civilização distante oferece tecnologias capazes de transformar a humanidade. Milhões de pessoas acompanham a promessa de um amanhã melhor.

Você sente curiosidade, esperança, talvez entusiasmo.

Eu também gostaria de conhecer esses conhecimentos.

Agora imagine que seus novos mestres apresentem uma condição: entregar a eles as decisões sobre nosso futuro.

Observe o que acontece em seu corpo.

Você pode admirar alguém, aprender com suas descobertas e experimentar novas possibilidades.

Mas quem continuará sendo você?

Mesmo com as melhores intenções de quem promete um amanhã melhor, precisamos continuar sendo por nós mesmos.

Essa pergunta acompanhará nossa viagem por três homens: barro, madeira e milho.

A ficção que revela nossas escolhas

Na série da Netflix O Problema dos 3 Corpos, a humanidade encontra sinais de uma civilização extraterrestre.

A história desenvolve diferentes reações humanas diante dessa possibilidade fictícia.

Alguns personagens depositam suas esperanças nos visitantes. Outros organizam tecnologias e estratégias para proteger a humanidade.

O que me interessa está nas decisões tomadas aqui, entre humanos.

Imagine acreditar tão profundamente em uma promessa que ela comece a definir suas amizades, seus valores e sua identidade.

Agora imagine defender a humanidade com tamanha convicção que cada decisão passe a ser avaliada pelo resultado final pretendido.

Duas narrativas diferentes podem compartilhar uma mesma pergunta ética:

Quem estamos dispostos a sacrificar pelo amanhã que imaginamos?

O navio e as crianças

No quinto episódio, um navio chamado Judgment Day atravessa o Canal do Panamá.

Há famílias e crianças a bordo.

Uma operação planejada para recuperar informações utiliza nanofibras capazes de cortar a embarcação.

O navio é destruído, com seus passageiros.

Imagine uma criança naquele convés.

Talvez estivesse brincando, aprendendo uma palavra ou conversando com alguém que ama.

Agora imagine as pessoas que planejaram a operação.

Elas possuem conhecimentos científicos, responsabilidades institucionais e uma missão considerada decisiva para proteger a humanidade.

Como uma promessa de proteção pode acompanhar uma decisão que destrói as próprias vidas que pretende proteger?

A cena nos permite investigar um problema humano, independentemente da ficção extraterrestre.

Quando os fins começam a justificar os meios

O utilitarismo possui tradições filosóficas complexas, que avaliam consequências, bem-estar e efeitos das ações.

Na ficção, encontramos um problema particular: transformar o resultado esperado em autorização para qualquer meio.

Uma criança passa a aparecer como parte de um cálculo estratégico.

O futuro imaginado recebe maior prioridade que a vida presente.

Agora quero fazer uma pergunta que atravessa nosso Corpo-Território:

Como podemos avaliar consequências coletivas reconhecendo simultaneamente a dignidade de cada existência?

A Ciência ajuda a investigar resultados. A Ética permite discutir valores. O Direito organiza responsabilidades e garantias.

E cada Corpo-Território participa das consequências concretas dessas decisões.

O Homem de Barro acredita pertencer a outro mundo

Na tradição K'iche' maia do Popol Wuj, encontramos figuras humanas de barro, madeira e milho.

A partir desse patrimônio ancestral, desenvolvemos uma interpretação filosófica própria na BrainLatam.

Nosso Homem de Barro vive profundamente introspectivo.

Ele se percebe pertencente a outro planeta, plano espiritual ou ordem superior.

Acredita possuir uma identidade elevada, relacionada a uma existência distante daquela produzida cotidianamente em seu território.

Imagine o quanto uma promessa extraterrestre pode significar para ele.

O amanhã parece oferecer o reencontro com aquilo que acredita verdadeiramente Ser.

Sua experiência nos convida a perguntar:

Que possibilidades encontramos quando reconhecemos também a vida que nosso corpo produz aqui?

O Homem de Madeira segue a narrativa

Agora conheça o Homem de Madeira.

Ele aprende repetindo gestos, crenças e interpretações.

Encontra amigos, reconhecimento e segurança em uma narrativa compartilhada.

Na BrainLatam, investigamos essa estabilidade como um ótimo local semântico-afetivo.

A narrativa funciona tão bem que passa a organizar rigidamente sua percepção de Ser.

Chamamos essa configuração, em nossa metáfora, de fé cega.

Pode acontecer em experiências religiosas, tecnológicas, científicas ou políticas.

Nosso Homem de Madeira talvez siga os visitantes. Talvez siga os líderes que prometem combatê-los.

Em ambos os casos, sua identidade pode passar a depender da execução da narrativa.

O seguidor deixou de Ser.

Essa provocação questiona a entrega da própria agência à interpretação de outro.

Quem conquista nosso coração e nossa mente?

Lembre-se de um filme que emocionou você.

A música cresce. O personagem enfrenta um desafio. Seu coração acelera.

Uma narrativa participa de sua experiência corporal.

Promessas religiosas, políticas e tecnológicas também podem mobilizar esperança, medo, reconhecimento e pertencimento.

Conhecemos a expressão: conquistar corações e mentes.

Emoção, memória, cognição e aprendizagem participam de processos integrados que a neurociência continua investigando.

Podemos estudar respostas relacionadas à expectativa e à avaliação de informações com EEG e, em tarefas adequadas, alterações hemodinâmicas corticais com fNIRS.

Essas medidas ajudam a elaborar perguntas científicas.

Nosso coração e nossa mente podem participar da liberdade de aprender e transcender-se Ser.

A tela oferece um recorte do recorte

Observe o celular novamente.

Uma cena foi enquadrada, editada e transformada em sinais digitais.

A tela apresenta pixels. Seus sentidos transduzem estímulos luminosos.

Sua percepção já é um recorte situado na história e no metabolismo de seu Corpo-Território.

Agora você percebe uma representação produzida por outras escolhas.

Algoritmos também participam da circulação dessas imagens.

É o recorte do recorte.

Na BrainLatam, formulamos:

Somos massificados pelas escolhas que não tivemos.

Mas cada aprendizado pode ampliar nosso horizonte perceptivo.

Podemos procurar outras fontes, conhecer novas experiências e participar da formulação das próprias perguntas.

O Homem de Milho reconhece seu território

Voltemos ao Popol Wuj.

O milho possui importância fundamental na narrativa da criação humana K'iche'.

Em nossa interpretação BrainLatam, o Homem de Milho representa o Corpo-Território que se reconhece nas relações que produzem sua existência.

Ele se percebe no alimento, na água, na cultura, nos conhecimentos e nas pessoas com quem convive.

O alimento participa de seu metabolismo. O aprendizado transforma suas possibilidades. Suas relações participam da experiência de Ser.

O Homem de Milho é nossa metáfora para o Jiwasa: pertencer, perceber, aprender e participar da transformação coletiva.

Sua existência possui história e continua em movimento.

O futuro ancestral já participa do presente

Ailton Krenak nos oferece, em Futuro ancestral, uma perspectiva importante sobre as relações entre futuro, memória e continuidade da vida.

Silvia Rivera Cusicanqui investiga experiências andinas de coletividade, criação e coexistência de diferenças.

A filósofa mexicana Lucero González Suárez desenvolve uma leitura fenomenológico-hermenêutica das figuras de barro, madeira e milho no Popol Wuj.

E Isael e Sueli Maxakali compartilham conhecimentos Tikmũ'ũn em projetos nos quais os próprios povos apresentam seus mundos.

Essas contribuições convidam a ampliar nossas perguntas.

Podemos respeitar nossos antepassados sem reduzir nosso Ser aos limites do que lhes foi possível perceber.

Aprender com outros também pode ampliar nossa participação no presente.

Na Mata Atlântica, encontrei meu movimento

Entrei na Mata Atlântica descalço, usando apenas um calção.

Ao sair da trilha, encontrei raízes, galhos e vegetação emaranhada.

Precisava preservar cada galho enquanto cuidava da minha pele.

Em alguns momentos, rastejei.

As mãos encontravam apoios. Os pés reconheciam o terreno.

Cada movimento revelava novas possibilidades.

Ali experimentei intensamente um princípio:

Perceber o que se pode.

Imagine alguém oferecendo orientações para atravessar aquela floresta.

Eu poderia aprender com sua experiência e continuar percebendo o território com meu próprio corpo.

O conhecimento compartilhado amplia caminhos.

E cada existência participa de seus movimentos.

Yãy hã mĩy: aprender para transcender-se Ser

Em diálogo com conhecimentos Tikmũ'ũn/Maxakali, a BrainLatam desenvolve uma interpretação filosófica estendida:

Yãy hã mĩy — Imitar Ser para transcender-se Ser.

Aprendemos observando, imitando, experimentando e transformando nossas interpretações.

Nosso Homem de Madeira também aprendeu imitando.

Agora pode experimentar outras posições.

O Homem de Barro pode reconhecer novas possibilidades de pertencimento ao território.

E o Homem de Milho pode continuar aprendendo com ambos.

Propomos um percurso:

Deixa vir → Deixa ficar → Deixa Ser → Pode desobedecer → Deixa ir.

Questionar uma narrativa pode abrir possibilidades de transformação.

Jiwasa: quem produzirá nosso amanhã?

Na arquitetura BrainLatam, o Corpo-Território constitui a unidade mínima e parte indivisível do Estado.

A IA Personalíssima propõe ampliar nossa participação na interpretação dos dados.

O Drex Cidadão investiga possibilidades de autonomia monetária.

O Rendimento Bioma propõe reconhecer a sustentação ecológica e social da vida.

A Produção de Excessos investiga necessidades coletivas, distribuição de valor e regeneração territorial.

Esses caminhos estão abertos à pesquisa e à construção democrática.

Somos herdeiros do passado, participantes do presente e corresponsáveis pelos futuros que tornamos possíveis para os próximos Corpos-Territórios.

Agora volte à criança no navio.

Ela está vivendo, aprendendo, percebendo e participando da produção do amanhã.

Podemos acolher conhecimentos de todos os mundos imagináveis. Mas nosso futuro começa nas vidas que já o estão produzindo.

E a pergunta também é sua:

Que amanhã podemos construir juntos quando nosso coração, nossa mente e nossas decisões participam da liberdade de cada Corpo-Território transcender-se Ser?

Referências latino-americanas comentadas

Lucero González Suárez (2023). El ser del hombre a la luz del Popol Vuh. Análisis fenomenológico-hermenéutico. LiminaR. Estudios Sociales y Humanísticos, 21(1). A filósofa mexicana investiga as figuras humanas de barro, madeira e milho na tradição K'iche', oferecendo uma base acadêmica especialmente relevante para as três metáforas desenvolvidas pela BrainLatam.

Ailton Krenak (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras. O pensador indígena brasileiro relaciona ancestralidade, rios, continuidade da vida e futuros possíveis, contribuindo diretamente para a reflexão sobre salvação e participação no presente.

Silvia Rivera Cusicanqui, em diálogo com Paola Lopes Zamariola e colaboradores (2024). Campo Abierto: conversas sobre prácticas y discursos descolonizadores con Silvia Rivera Cusicanqui. Rebento. O diálogo com a socióloga boliviana aborda práticas coletivas, temporalidade, territorialidade, cosmovisão aymara e descolonização, ampliando nossa investigação sobre pertencimento e agência.

Isael Maxakali, Sueli Maxakali e curadores indígenas (2025). Mundos Indígenas — UFMG. Exposição com curadoria indígena que apresenta perspectivas Tikmũ'ũn/Maxakali, Yanomami, Ye’kwana, Xakriabá e Pataxoop. Fundamenta a importância de conhecer as cosmologias a partir da participação de seus próprios povos.

BrainLatam (2026). Território — O ambiente não é cenário: do homem de barro ao homem de milho. Aprofunda a leitura contemporânea do Popol Wuj e desenvolve a relação entre Corpo-Território, percepção, alimento e existência.

Referência audiovisual complementar

Netflix (2024). 3 Body Problem — Episode 5: Judgment Day. O relato oficial da produção documenta a operação contra o navio e o conflito moral enfrentado pelos personagens, destacando a violência praticada por aqueles que se apresentam como defensores da humanidade.

BRAINLATAM · W43/2026 · O PROBLEMA DOS 3 CORPOS







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States