Jackson Cionek
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O novo negacionismo climático - quando a narrativa aceita o problema para destruir a solução

O novo negacionismo climático - quando a narrativa aceita o problema para destruir a solução

O novo negacionismo climático não começa no cidadão comum que repete uma frase errada na internet. Esse é o efeito visível. A causa está mais acima: nos altos fluxos de dinheiro, nas famílias e grupos que controlam terra, crédito, mídia, cargos, fundos e influência política. A crise climática não é sabotada apenas por ignorância, mas por uma engenharia de preservação patrimonial. O negacionismo atual aceita que há enchente, seca, calor, fumaça e perda de biodiversidade; o que ele nega é a cadeia causal que liga esses efeitos à concentração de terra, ao desmatamento financiado, à produção de excesso, ao lobby e à captura do Estado.

Essa mutação já aparece em pesquisa recente. Um estudo sobre 226.775 vídeos brasileiros do YouTube, publicados entre 2019 e 2025, identificou a passagem do negacionismo clássico para um “novo negacionismo” que aceita a mudança climática, mas ataca mitigação, adaptação, governança climática, energias renováveis e defensores ambientais. (Seer UFU) O efeito parece debate público; a causa é captura da resposta. O Jiwasa falso climático reúne a sociedade diante de uma dor real, mas conduz a energia coletiva contra as soluções que tocariam o centro do poder.

Esse método tem genealogia. Em Mercadores da dúvida, Naomi Oreskes e Erik Conway mostraram como a fabricação de incerteza foi usada em temas como tabaco, chuva ácida, ozônio e aquecimento global para retardar regulação. A operação não precisava provar que a ciência estava errada; bastava manter a controvérsia viva. No clima atual, o jargão científico é sequestrado: fala-se em “incerteza”, “produtividade”, “segurança energética”, “custo-benefício”, “neutralidade tecnológica” e “mais estudos”. Quando o jargão aproxima a sociedade da causa, é ciência; quando afasta a sociedade da ação, vira mercadoria da dúvida.

A camada que precisa aparecer com mais força é a terra. No Brasil, o CPF real muitas vezes pode se esconder atrás de CNPJ, holdings, fundos, arrendamentos, laranjas, estruturas societárias e instrumentos financeiros para controlar grandes extensões territoriais sem aparecer como corpo-território responsável por elas. A Agência Pública mostrou, com dados do Incra, que grupos estrangeiros controlam no Brasil área equivalente a um estado inteiro, com presença expressiva em estados ligados ao agro, garimpo e mineração. (Agência Pública) A causa climática, portanto, não é apenas “uso da terra”; é quem controla a terra sem viver nela, sem responder por ela e sem devolver rendimento ao território.

Num Estado responsável, toda terra deveria pertencer ou estar vinculada a um corpo-território vivo, situado e responsável, com limites máximos bem determinados. Terra não pode ser apenas ativo abstrato de CPF escondido em CNPJ, fundo ou holding. Se a terra sustenta água, floresta, alimento, clima, solo, cultura, trabalho e futuro, ela não pode pertencer infinitamente a uma ficção jurídica que não respira aquele território. Quando a terra vira ativo financeiro sem corpo, o bioma vira passivo invisível. O CPF lucra, o CNPJ opera, o fundo acumula, mas quem paga é o corpo-território local: rio, solo, floresta, comunidade, cidade e clima.

Essa financeirização da terra é uma das causas que o novo negacionismo protege. Pesquisas recentes sobre estrangeirização e financeirização fundiária mostram o interesse crescente do capital nacional e internacional por terras, recursos naturais e ativos agroambientais no Brasil, especialmente após a crise financeira de 2008 e com novos instrumentos de crédito privado ligados ao agronegócio. (Seer UFU) O efeito é apresentado como investimento, modernização ou produtividade. A causa, porém, é a transformação do território vivo em carteira de ativos. Onde deveria haver corpo-território, aparece portfólio.

Essa estrutura se parece com o crime organizado sofisticado dos altos fluxos de dinheiro. Não aparece primeiro como violência direta, mas como procedimento, parecer, licença, cargo, lobby, orçamento, nomeação, exceção, prescrição e linguagem técnica. No campo ambiental, a destruição pode ser legalizada antes de parecer crime. Quando leis flexibilizam licenciamento, quando autodeclaração substitui análise séria, quando terras sem destinação clara viram oportunidade de regularização, o bioma deixa de ser sujeito vivo e vira obstáculo administrativo. Em 2025, críticos chamaram a nova legislação brasileira de licenciamento de “PL da Devastação” por enfraquecer controles ambientais e ampliar mecanismos de autorização simplificada. (SciELO) O efeito é “simplificação”; a causa é retirar o bioma do centro do poder.

Aqui entra a falha constitucional. A Constituição brasileira protege o meio ambiente, mas o bioma ainda não aparece como sujeito de poder capaz de interromper a lei que o fere. O bioma é tratado como bem, patrimônio, recurso, equilíbrio ecológico ou interesse difuso, mas não como presença política com veto causal. Enquanto o bioma não for sujeito de poder, qualquer congresso capturado pode produzir nova legalidade para desmatar, grilar, compensar mal, minerar ou regularizar dano. A destruição muda de nome: vira matrícula, licença, crédito, regularização, compensação ou desenvolvimento. A causa continua a mesma: corpo-território sem poder diante de quem escreve a regra.

A frase “passar a boiada”, dita por Ricardo Salles quando era ministro do Meio Ambiente, tornou-se símbolo dessa engenharia. O ponto causal não é apenas uma pessoa, mas o método: ocupar o Estado para desmontar regulações por dentro. Em 2021, Salles foi alvo de investigação ligada a suspeitas envolvendo exportações ilegais de madeira amazônica e possível obstrução de apuração; ele deixou o ministério em junho daquele ano. (Imaflora Admin) Quando operadores da desregulação chegam aos melhores cargos das instituições ambientais, o negacionismo deixa de ser opinião e vira administração pública.

Essa operação também depende de comunicação. A infraestrutura da atenção pública no Brasil é concentrada. O Media Ownership Monitor Brasil mapeia grupos que controlam veículos influentes e riscos à pluralidade e à independência da mídia. (Cbg2024) Isso não significa que todo jornalista atue de má-fé. Significa que quem controla mídia, publicidade, reputação e influência tem maior capacidade de definir o que aparece como progresso, radicalismo, exagero, ameaça, desenvolvimento ou liberdade. O novo negacionismo climático não quer apenas esconder dados; quer controlar a moldura emocional pela qual a sociedade interpreta a causa.

Além da mídia tradicional, há a compra da viralização. O NetLab UFRJ analisou publicidade digital do agronegócio brasileiro e apontou o uso de sustentabilidade como greenwashing e desinformação em redes. (SUMAÚMA) O efeito parece campanha positiva: família no campo, alimento na mesa, orgulho nacional, produtor herói, tecnologia limpa. A causa pode ser guerra de pertencimento. O Jiwasa falso paga para parecer povo, enquanto desloca a pergunta principal: quem é dono da terra, quem financia a narrativa, quem recebe crédito, quem desmata, quem exporta e quem paga o custo climático?

A produção de excesso é outra causa profunda, mesmo que mereça um blog próprio. Quando o país organiza sua economia para produzir excedentes exportáveis — soja, carne, minério, energia, terra convertida, commodities, créditos ambientais e logística — esse excesso passa a exigir diplomacia de Estado, isenções, incentivos, crédito subsidiado, infraestrutura pública e proteção política. A Sumaúma reportou que renúncias federais associadas ao agronegócio chegaram a R$ 158 bilhões por ano, beneficiando especialmente cadeias exportadoras e grandes grupos. (SUMAÚMA) O efeito é “competitividade”; a causa é o sequestro de parte da atenção do governo para manter o excesso exportável, enquanto água, escola, saúde, energia local e rendimento territorial ficam em segundo plano.

A camada financeira fecha o circuito. Desmatamento não sobrevive apenas de opinião; depende de crédito, seguro, logística, exportação, preço da terra, compradores, bancos e acesso institucional. Em 2026, o Brasil passou a exigir que bancos verificassem, por ferramentas oficiais de satélite, se solicitantes de crédito rural desmataram desde 2019 para acessar crédito subsidiado, medida que afetou grande volume de crédito rural e enfrentou resistência de setores do agronegócio. (Imaflora Admin) Quando o dinheiro deixa de financiar desmatamento, o discurso muda. A defesa abstrata da liberdade produtiva frequentemente esconde a disputa concreta pelo fluxo de crédito.

Por isso, a pergunta metacognitiva não pode ser apenas: “isso é fake news?”. Ela precisa ser: quem financia a dúvida? Quem ocupa o cargo? Quem escreveu a licença? Quem comprou o anúncio? Quem viralizou a narrativa? Quem é dono da terra? Quem se esconde atrás de CNPJ, fundo ou holding? Quem ganha com a prescrição? Quem transforma grilagem em regularização? Quem chama desmatamento de liberdade produtiva? Quem produz excesso que não volta ao corpo-território? Quem impede que o bioma seja sujeito de poder?

O Jiwasa Real climático começa quando a narrativa devolve o problema à sua causa material. Não basta dizer que o planeta aquece. É preciso perguntar quem lucra com o aquecimento, quem atrasa a transição, quem controla a comunicação, quem captura o licenciamento, quem recebe incentivo, quem concentra terra e quem transforma bioma em objeto sem voz. A CEPAL defende que a ação climática na América Latina pode ser caminho para superar armadilhas de desenvolvimento, articulando produtividade, inclusão e sustentabilidade. Mas isso só será real se a transição devolver água, energia, floresta, crédito e rendimento ao corpo-território, e não apenas reputação verde aos mesmos donos do atraso.

A conclusão é direta: o novo negacionismo climático é mais perigoso porque aprendeu a parecer racional, técnico, popular e até ambiental. Ele aceita a crise para disputar sua interpretação. Aceita a ciência para fabricar dúvida. Aceita a sustentabilidade para vender greenwashing. Aceita o povo para proteger elite. Aceita a lei para legalizar dano. Contra isso, o Novo Mundo precisa colocar o bioma como sujeito de poder, limitar a propriedade sem corpo, impedir CPF escondido em CNPJ de controlar território ilimitado e fazer a produção retornar ao corpo-território. Porque, enquanto a floresta não puder barrar a lei que a destrói, a elite do atraso continuará chamando devastação de desenvolvimento.


Referências selecionadas

Marcelo Sartori Locatelli et al. — “Mapping Emerging Climate Misinformation Playbooks in the Global South” — 2026

Sustenta a tese do novo negacionismo climático: aceitar a mudança climática, mas atacar soluções, mitigação, adaptação, governança climática, energias renováveis e defensores ambientais. O estudo analisou 226.775 vídeos brasileiros no YouTube entre 2019 e 2025. (Seer UFU)

Ergon Cugler de Moraes Silva — “Climate change denial and anti-science communities on Brazilian Telegram” — 2024

Sustenta a relação entre negacionismo climático, comunidades anti-ciência, Telegram, Agenda 2030, globalismo e teorias conspiratórias no Brasil. (Rtrib)

Agência Pública — estrangeiros e controle de terras no Brasil — 2024

Sustenta a crítica à concentração e ao controle de terras por grupos econômicos, inclusive estrangeiros, em áreas ligadas ao agro, garimpo e mineração. (Agência Pública)

Kato — “Estrangeirização de terras no Brasil contemporâneo” — 2024

Sustenta a análise sobre interesse do capital por terras, recursos naturais e ativos fundiários, ajudando a fundamentar a crítica à terra como ativo financeiro. (Seer UFU)

“A geografia dos FIAGROS” — 2025

Sustenta a camada sobre novos instrumentos financeiros ligados ao agronegócio, crédito privado e financeirização do território. (Cbg2024)

The Guardian / Reuters — licenciamento ambiental e “PL da Devastação” — 2025

Sustentam a crítica à flexibilização do licenciamento ambiental, à autodeclaração e à disputa institucional sobre enfraquecimento da proteção ambiental. (SciELO)

Mongabay — Ricardo Salles, madeira ilegal e investigação — 2021

Sustenta o contexto de investigação envolvendo Ricardo Salles, madeira amazônica e suspeitas de obstrução, além de sua saída do Ministério do Meio Ambiente. (Imaflora Admin)

Media Ownership Monitor Brasil — 2022

Sustenta a análise sobre concentração da infraestrutura de comunicação e risco à pluralidade midiática no Brasil. (Cbg2024)

NetLab UFRJ — greenwashing e publicidade digital do agronegócio — 2024

Sustenta a crítica ao uso de sustentabilidade como greenwashing e desinformação na publicidade digital do agronegócio brasileiro. (SUMAÚMA)

Sumaúma — isenções tributárias do agro — 2025

Sustenta a camada sobre renúncias fiscais, incentivos e produção de excesso que sequestra atenção e recursos do Estado. (SUMAÚMA)

Reuters / AP — crédito rural, satélite e desmatamento — 2026

Sustentam a camada financeira: bancos passam a verificar dados de desmatamento por satélite antes de conceder crédito rural subsidiado, mostrando que a causal climática passa pelo fluxo de dinheiro. (Imaflora Admin)

Naomi Oreskes e Erik Conway — Mercadores da dúvida

Referência estrutural para entender a fabricação de dúvida com aparência científica como método para atrasar regulação em temas como tabaco, ozônio e aquecimento global.





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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States