Jackson Cionek
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O ar que entra em você não pertence a você

O ar que entra em você não pertence a você

Atmosfera, pulmão, sangue e célula: onde termina o território e começa o corpo?

Antes de continuar, podemos experimentar algo juntos.

Não mude sua respiração.

Apenas perceba a próxima inspiração.

O ar entra.

O tórax muda discretamente de forma. O diafragma se desloca. O ar percorre vias respiratórias até alcançar milhões de alvéolos. Ali, existe uma superfície extremamente fina separando aquilo que, alguns instantes antes, chamávamos de atmosfera daquilo que chamamos de sangue.

Parte do oxigênio atravessa essa fronteira.

Poucos segundos depois, estará viajando por dentro de você.

Agora expire.

Parte do carbono que sai de seus pulmões não estava no ar que acabou de entrar. Ele participou do metabolismo de células que você chama de suas.

Talvez aquele carbono tenha vindo de uma fruta.

Do arroz.

Da mandioca.

De um animal que comeu uma planta.

E antes disso pode ter estado na atmosfera.

Talvez nossa fronteira seja real.

Mas talvez nunca tenha sido absoluta.

O ar não se torna nosso porque entrou no pulmão

Costumamos dizer:

“meu pulmão”.

“meu sangue”.

“meu oxigênio”.

Essas palavras são úteis.

Mas podem criar uma impressão de propriedade que a própria fisiologia não confirma.

O oxigênio que entra em nosso organismo existia antes de nós.

Durante a ventilação, ar atmosférico chega aos alvéolos. Oxigênio e dióxido de carbono atravessam a interface alvéolo-capilar seguindo diferenças de pressão parcial. O oxigênio passa para o sangue, enquanto o CO₂ realiza predominantemente o caminho contrário. (PubMed)

No sangue, grande parte do oxigênio liga-se à hemoglobina.

O coração movimenta esse sangue.

O oxigênio chega aos tecidos, deixa progressivamente as hemácias e atravessa diferentes camadas até alcançar as células.

A viagem continua até as mitocôndrias, onde o oxigênio participa da fosforilação oxidativa e da produção eficiente de ATP, permitindo que músculos se movam, neurônios mantenham gradientes elétricos e células realizem inúmeras funções. (PubMed)

Podemos representar essa descida assim:

atmosfera
→ pulmão
→ sangue
→ tecido
→ célula
→ mitocôndria.

Mas isso é somente metade da história.

O corpo também retorna ao planeta

Ao metabolizarmos carboidratos, lipídios e proteínas, produzimos dióxido de carbono.

Esse CO₂ deixa as células.

Passa para o sangue.

Grande parte é temporariamente transportada na forma de bicarbonato.

Chega novamente aos pulmões.

E retorna à atmosfera.

Podemos completar o ciclo:

atmosfera
→ pulmão
→ sangue
→ célula
→ metabolismo
→ CO₂
→ sangue
→ pulmão
→ atmosfera.

Talvez agora aquela linha que separava “corpo” e “mundo” pareça um pouco menos rígida.

A matéria atravessa nossas fronteiras continuamente.

Imagine apenas um átomo de carbono

Vamos simplificar ainda mais.

Imagine um átomo de carbono.

Ele estava no ar.

Uma planta o incorporou.

Aquele carbono participou de uma molécula orgânica.

Você comeu a planta.

Durante algum tempo, aquele carbono entrou no sistema que chamamos de “meu corpo”.

Pode ter participado de glicose.

De gordura.

De alguma estrutura celular.

Depois foi oxidado.

Transformou-se em CO₂.

Você expirou.

Agora voltou ao território.

Talvez outra planta o incorpore.

Talvez atravesse outro organismo.

Aquilo que durante algum tempo chamamos de “eu” é atravessado continuamente por matéria que existia antes de nós e continuará existindo depois.

Isso não significa que o indivíduo seja uma ilusão.

A fronteira existe.

Mas:

existir como indivíduo não exige existir separado.

Essa será uma ideia importante para toda esta série.

Corpo-Território fica concreto quando a floresta queima

Até agora falamos principalmente de oxigênio e CO₂.

Mas o pulmão não recebe apenas aquilo de que nosso metabolismo necessita.

Quando inspiramos, também podem entrar:

partículas,

fumaça,

poluentes,

aerossóis,

pólen,

substâncias produzidas por incêndios.

Aqui Corpo-Território deixa de parecer apenas uma ideia filosófica.

Pesquisadores brasileiros mostraram que a fumaça das queimadas florestais produz exposição significativa a material particulado em milhões de habitantes da Amazônia brasileira, aumentando riscos ambientais para a saúde. (PubMed Central (PMC))

Outro estudo publicado em 2023 estimou que a proteção das Terras Indígenas amazônicas possui efeitos que ultrapassam suas fronteiras territoriais. As florestas protegidas ajudam a reduzir exposição a partículas associadas a doenças respiratórias e cardiovasculares, com benefícios de saúde e econômicos que alcançam populações muito maiores. (Nature)

Então podemos acompanhar outro caminho:

floresta
→ fogo
→ partículas
→ atmosfera
→ pulmão
→ sangue e tecidos
→ saúde.

Uma decisão tomada quilômetros distante pode chegar fisicamente ao Corpo-Território de outra pessoa através de uma inspiração.

Qual é, então, o tamanho do corpo?

Talvez possamos fazer uma pergunta aparentemente estranha.

Seu corpo termina na pele?

Biologicamente, a pele constitui uma fronteira importante.

Mas a própria manutenção dessa fronteira depende continuamente de coisas externas a ela.

Ar.

Água.

Alimento.

Temperatura.

Microrganismos.

Outros seres humanos.

Território.

Rogério Haesbaert desenvolve, dentro de uma perspectiva latino-americana, a ideia de corpo-território e território-corpo da Terra. Sua análise mostra como território não precisa ser compreendido apenas como área delimitada juridicamente, mas a partir da experiência vivida, do pertencimento, das relações de poder e das relações materiais e afetivas com a Terra. (Cultura y Resiliencia Social)

Talvez o corpo possua limites.

Mas esses limites são atravessáveis.

Tekoha não significa simplesmente “ambiente”

Aqui precisamos de cuidado.

Não queremos retirar uma palavra de uma cosmologia indígena e transformá-la numa variável biomédica.

Izaque João, pesquisador indígena Kaiowá, descreve tekoha como muito mais do que uma localização geográfica. É o espaço no qual pode ser constituído um modo próprio de viver, envolvendo autonomia, relações familiares, práticas espirituais e a reconstrução do território. (SciELO)

Portanto, não diremos:

Tekoha = ambiente.

Muito menos:

Tekoha = algum sinal do EEG ou da HRV.

Na construção que estamos fazendo, Tekoha nos ajuda a perguntar:

de que maneira o lugar onde uma vida acontece participa daquilo que essa vida pode tornar-se?

O ar é uma das respostas mais concretas.

A qualidade do território modifica o ar.

O ar modifica o organismo.

O organismo modifica como sente, age e retorna ao território.

Não existe apenas:

mundo → corpo.

Existe:

mundo → corpo → mundo.

E APUS não é uma montanha transformada em biomarcador

O mesmo cuidado vale para APUS.

Estudos recentes nos Andes mostram que montanhas sagradas não podem ser reduzidas simplesmente a acidentes geográficos.

O Cerro Llamocca, no sul do Peru, por exemplo, reuniu durante milênios ocupações humanas, práticas funerárias, organização territorial e relações rituais associadas à montanha como apu. (ScienceDirect)

Pesquisadores da Universidade de Tarapacá e da FLACSO também mostram que, nas sociedades andinas, paisagem, espaço e ritual podem envolver relações intensas entre humanos e entidades não humanas, tornando insuficiente tratar a paisagem apenas como cenário passivo. (DRA)

Portanto:

APUS não é propriocepção.

Não é NIRS.

Não é EEG.

Usamos APUS como uma lente para perguntar:

até onde precisamos ampliar aquilo que chamamos de corpo para compreender sua orientação no mundo?

Uma montanha modifica altitude.

Pressão atmosférica.

Temperatura.

Disponibilidade de oxigênio.

Água.

Movimento.

Alimentação.

Organização social.

Memória.

O território altera o organismo sem precisar entrar inteiro dentro dele.

Confluência talvez seja mais útil do que fusão

Antônio Bispo dos Santos oferece outra palavra importante:

confluência.

Confluenciar não significa que tudo deixe de possuir identidade e se transforme numa única coisa.

Sistemas diferentes encontram-se e modificam possibilidades uns dos outros sem deixarem necessariamente de ser aquilo que são. A leitura recente de A terra dá, a terra quer destaca justamente essa relação de pertencimento em que humanos não aparecem apenas como habitantes externos do mundo, mas como compartilhantes de relações com outros seres e territórios. (SciELO)

Talvez nossa respiração seja uma confluência extraordinariamente simples.

O ar continua sendo matéria do planeta.

Você continua sendo um organismo.

Mas durante alguns segundos aquele ar participa daquilo que mantém você vivo.

Há fronteira sem separação absoluta.

A consciência em primeira pessoa vive essa relação sem enxergar todas as suas partes

Agora volte à sua respiração.

Você não sente cada molécula de oxigênio atravessando um alvéolo.

Não percebe conscientemente a hemoglobina mudando sua saturação.

Não acompanha cada mitocôndria utilizando oxigênio.

Mesmo assim, essas relações participam continuamente das condições que tornam possível sua experiência.

Na BrainLatam já propusemos APUS e Tekoha como janelas complementares para pensar como o mundo entra no corpo e como o corpo retorna ao mundo. A própria respiração inteira foi utilizada como ponte para observar postura, vísceras, metabolismo e território sem reduzi-los a sistemas independentes. (brainlatam)

Talvez Consciência em Primeira Pessoa não signifique que o mundo nasce dentro de nossa cabeça.

Pode significar algo simultaneamente mais simples e mais profundo:

tudo aquilo que conseguimos viver como realidade é vivido a partir deste Corpo-Território situado.

E esse Corpo-Território nunca esteve sozinho.

O ar que entra agora existia antes de você.

O carbono que sai continuará depois.

Talvez seja por isso que a próxima pergunta da série precise ser ainda menor.

No próximo blog vamos acompanhar uma única respiração em quatro momentos:

inspirar,
manter cheio,
expirar,
manter vazio.

E observar o que acontece simultaneamente com coração, intervalos RR, CO₂, SpO₂, fluxo sanguíneo cerebral, EEG e NIRS.

Porque talvez uma única respiração já contenha, em escala microscópica, aquilo que acompanhamos desde o primeiro blog:

o território entra no corpo, o corpo modifica aquilo que recebeu e ambos continuam diferentes depois do encontro.

Referências principais

PETERSSON, J.; GLENNY, R. W. (2023). Gas Exchange in the Lung. Seminars in Respiratory and Critical Care Medicine, 44(5), 555–568.
Contribuição para este texto: fundamenta a explicação sobre ventilação alveolar e troca de O₂ e CO₂ através da interface alvéolo-capilar. (PubMed)

POOLE, D. C.; MUSCH, T. I.; COLBURN, T. D. (2022). Oxygen flux from capillary to mitochondria: integration of contemporary discoveries. European Journal of Applied Physiology, 122, 7–28.
Contribuição para este texto: sustenta a “descida fractal” do oxigênio, mostrando seu percurso desde o sangue capilar até a utilização mitocondrial nos tecidos. (PubMed)

OLIVEIRA, I. N. et al. (2023). Air pollution from forest burning as environmental risk for millions of inhabitants of the Brazilian Amazon: an exposure indicator for human health. Cadernos de Saúde Pública, 39(6).
Contribuição para este texto: mostra de forma concreta como transformações no território amazônico, especialmente queimadas, tornam-se exposição respiratória para milhões de Corpos-Territórios. (PubMed Central (PMC))

PRIST, P. R. et al. (2023). Protecting Brazilian Amazon Indigenous territories reduces atmospheric particulates and avoids associated health impacts and costs. Communications Earth & Environment, 4, 34.
Contribuição para este texto: conecta proteção territorial indígena, qualidade do ar e saúde, demonstrando que conservar uma floresta pode produzir benefícios respiratórios e cardiovasculares muito além de suas fronteiras. (Nature)

JOÃO, I. (2023). Autonomia Kaiowá e Guarani: a ação dos nhanderu e nhandesy na criação dos tekoha. Revista de Antropologia, 66.
Contribuição para este texto: oferece uma referência produzida por um pesquisador Kaiowá para compreender tekoha como espaço de autonomia e possibilidade de viver segundo um modo próprio, evitando reduzi-lo à palavra ocidental “ambiente”. (SciELO)

HAESBAERT, R. (2022). Del cuerpo-territorio al territorio-cuerpo (de la Tierra): contribuciones decoloniales. Cultura y Representaciones Sociales.
Contribuição para este texto: sustenta a discussão latino-americana sobre Corpo-Território, mostrando que território envolve simultaneamente materialidade, experiência vivida, afetos, poder e pertencimento. (Cultura y Resiliencia Social)

MADER, C. et al. (2023). In the land of the apu: Cerro Llamocca as a sacred mountain and central place in the pre-Columbian Andes of southern Peru. Journal of Archaeological Science: Reports, 49, 104045.
Contribuição para este texto: fornece evidência arqueológica da relação histórica entre comunidades andinas e uma montanha reconhecida como apu, apoiando nossa decisão de não reduzir APUS a uma simples variável fisiológica. (ScienceDirect)

MUÑOZ-HENRÍQUEZ, W.; PIÑONES-RIVERA, C.; RODRÍGUEZ VALDIVIA, A. (2023). Paisaje en acción. Los estudios sobre espacio y ritual en los Andes. Disparidades. Revista de Antropología, 78(2), e018.
Contribuição para este texto: mostra, a partir de pesquisadores latino-americanos, como as relações andinas com espaço e paisagem incluem agência, ritual e relações com entidades não humanas, indo além da ideia de paisagem como cenário. (DRA)

KRENAK, A. (2022). Futuro Ancestral. Companhia das Letras.
Contribuição para este texto: amplia a reflexão sobre rios, Terra e pertencimento, ajudando a deslocar a visão do ambiente como recurso externo para a ideia de continuidade da vida com o território. (Educa)

BISPO DOS SANTOS, A. (2023). A terra dá, a terra quer. Ubu Editora/Piseagrama.
Contribuição para este texto: oferece o conceito de confluência como forma de relação na qual diferenças podem encontrar-se sem desaparecer, ajudando a pensar a respiração como troca sem fusão absoluta entre corpo e território. (Letras UFMG)

BrainLatam (2026). APUS y Tekoha – cómo el mundo entra en el cuerpo y el cuerpo retorna al mundo.
Contribuição para este texto: fornece a base conceitual anterior da BrainLatam para tratar APUS e Tekoha como janelas complementares da relação Corpo-Território, e não como biomarcadores. (brainlatam)

BrainLatam (2026). Respiración Entera: Puente entre APUS y Tekoha.
Contribuição para este texto: conecta a reflexão territorial à respiração, preparando a passagem para os próximos blogs sobre fases respiratórias, HRV, EEG, NIRS e regulação corporal. (brainlatam)







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States