Jackson Cionek
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JIWASA REAL - UMA NOVA ORDEM DEMOCRÁTICA

JIWASA REAL -  UMA NOVA ORDEM DEMOCRÁTICA

E se não começássemos pelas instituições herdadas?

Uma pesquisadora fecha uma planilha porque o edital termina naquela noite. Um médico reduz o tempo de escuta para cumprir metas. Uma mulher cuida de uma criança e de uma pessoa idosa sem que esse trabalho apareça como produção. Um rio perde volume sem participar da decisão que autorizou sua exploração.

Cada parte parece cumprir sua função.

Ainda assim, o conjunto pode caminhar para o colapso.

A pergunta final desta série é constituinte:

Que democracia criaríamos se não precisássemos começar pelas instituições que herdamos?

Na hipótese BrainLatam, a resposta começa pelo Corpo-Território como unidade mínima do Estado.

Antes do mercado, do imposto ou do partido existe uma vida situada, dependente de água, cuidado, linguagem, atenção, comunidade e Bioma.

A democracia não nasceu uma única vez

O despertar de tudo, de David Graeber e David Wengrow, reuniu evidências de que sociedades anteriores à colonização europeia experimentaram assembleias, confederações, autonomias territoriais e limites a governantes.

Isso não significa que todas fossem igualitárias.

Significa que centralização, propriedade concentrada e obediência permanente nunca foram o único destino humano.

Wengrow também retomou a hipótese de que críticas ameríndias à propriedade, à pobreza e à submissão circularam na Europa e participaram do ambiente intelectual em que o Iluminismo se formou. A extensão dessa influência continua debatida, mas o pensamento indígena precisa ser reconhecido como filosofia e teoria política, não como simples material observado por europeus. (The British Academy)

Talvez a democracia moderna não tenha sido apenas levada da Europa às Américas.

Talvez a Europa também tenha aprendido com os povos que encontrou aqui.

Bolhas, pertencimento e monetização

Em A maravilha dos sistemas complexos, Giorgio Parisi mostra como padrões coletivos podem emergir de interações locais sem DNA, plano central ou comando capaz de prever a forma final. Componentes com regras relativamente simples podem produzir comportamentos coletivos complexos. (Companhia das Letras)

A física não determina como organizar uma sociedade.

Mas oferece uma analogia importante.

Nas redes sociais, bolhas podem emergir do encontro entre preferências humanas, vínculos anteriores, desigualdades, incentivos comerciais e sistemas de recomendação.

Modelos recentes indicam que algoritmos podem reforçar exposições homogêneas, mas as redes sociais e escolhas anteriores das pessoas também são decisivas. A polarização não nasce apenas do código; emerge da interação entre a arquitetura digital e conflitos já existentes. Estudos envolvendo o contexto brasileiro também mostram que atravessar bolhas não garante diálogo: conteúdos que alcançam grupos diferentes podem produzir encontros marcados por hostilidade e incivilidade. (DOI)

A pessoa sente pertencimento.

A plataforma mede retenção.

O anunciante encontra um perfil.

O grupo de poder encontra mobilização.

A bolha acolhe — e monetiza o acolhimento.

Jiwasa não é unanimidade

Na apropriação respeitosa proposta pela BrainLatam, Jiwasa designa um “nós” que não apaga quem participa dele.

Não é consenso obrigatório.

Não é uma única voz.

Uma sociedade em que todos precisam concordar não construiu comunidade. Construiu obediência.

A Democracia Jiwasa pergunta:

Conseguimos criar um mundo comum sem exigir que todos pensem, sintam ou existam da mesma maneira?

Suas normas nasceriam das necessidades dos Corpos-Territórios e das condições que o Bioma exige para continuar sustentando a vida.

Somente depois dessa base seriam incorporados mecanismos que funcionam bem nas repúblicas federativas: direitos fundamentais, devido processo, autonomia territorial, serviços públicos, alternância, fiscalização e controle do poder.

Primeiro definimos o que precisa permanecer vivo.

Depois desenhamos as instituições.

O que a economia deixa fora

Antes de qualquer trabalhador chegar ao mercado, alguém preparou comida, cuidou de uma criança, acompanhou uma pessoa idosa ou acolheu alguém em sofrimento.

Nos países latino-americanos que medem essa contribuição, o trabalho doméstico e de cuidados não remunerado equivale, em média, a 21,3% do PIB. As mulheres realizam 74,5% desse valor. Mesmo sustentando famílias, empresas e instituições, esse trabalho permanece amplamente fora da remuneração e do poder de decisão. (CEPAL)

O mesmo ocorre com o Bioma.

A floresta que mantém água, solo e biodiversidade aparece como riqueza ainda não realizada.

Sua destruição, porém, entra nas contas como produção.

Uma Democracia Jiwasa reconheceria cuidado, água, biodiversidade, linguagem, ciência e dados como infraestruturas coletivas.

O Drex Cidadão ofereceria segurança material universal.

O Rendimento Bioma devolveria recursos aos territórios que mantêm a continuidade ecológica.

O dividendo dos dados reconheceria que a inteligência social também produz riqueza.

O perigo do ótimo local

Sistemas complexos podem melhorar uma parte e piorar o conjunto.

Cada área do conhecimento possui seu próprio ótimo local: uma métrica, um jargão e um problema considerado central dentro de sua fronteira.

O pesquisador pode avançar em sua disciplina e, involuntariamente, ajudar a manter um sistema incapaz de proteger a vida.

Nas Ciências Exatas e da Terra, precisão pode virar abstração sem território.

Nas Engenharias, eficiência pode ignorar quem suportará os custos humanos e ambientais.

Nas Ciências Biológicas, componentes podem eclipsar relações ecológicas.

Nas Ciências da Saúde, tratamentos podem receber mais atenção e financiamento que prevenção, cuidado e causas socioambientais.

Nas Ciências Agrárias, produtividade pode esconder água, contaminação, concentração fundiária e perda de biodiversidade.

Nas Ciências Sociais Aplicadas, crescimento, crédito e segurança jurídica podem proteger contratos sem proteger comunidades.

Nas Ciências Humanas, uma crítica sofisticada pode não chegar a quem vive o problema.

Em Linguística, Letras e Artes, reconhecimento acadêmico pode separar expressão, memória e imaginação dos territórios que as produziram.

Essas oito grandes áreas clássicas, além dos arranjos multidisciplinares reconhecidos pelas instituições de pesquisa, ajudam a organizar o conhecimento brasileiro. Não podem transformar fronteiras administrativas em fronteiras da realidade. (Serviços e Informações do Brasil)

Quem escolhe as perguntas da ciência?

A ciência não é orientada apenas pela censura.

Também é orientada por aquilo que recebe financiamento, prestígio, laboratório, bolsa e possibilidade de publicação.

Mercedes García Carrillo, Federico Testoni, Cecilia Rikap, Matías Blaustein e colaboradores analisaram mais de 16 mil artigos vinculados ao CONICET argentino. Encontraram correspondência entre sua agenda biomédica e prioridades internacionais centradas em biologia molecular, câncer e intervenções farmacológicas, enquanto fatores socioambientais permaneciam marginais. O estudo não demonstra que toda pesquisa financiada esteja capturada. Mostra que agendas externas e posições econômicas periféricas podem influenciar o que se torna pesquisável. (UCL Discovery)

Thaiane Oliveira e Marcus Vinicius Bomfim também mostraram que agendas de pesquisa sobre o Sul Global frequentemente chegam acompanhadas das prioridades de financiadores do Norte, reduzindo a participação latino-americana na definição das perguntas. (Taylor & Francis Online)

O problema não é receber recursos.

É deixar de perguntar:

Quem escolheu a pauta?

Quem definiu as palavras do edital?

Quem interpretará os resultados?

Quem poderá transformar a descoberta em propriedade?

Onde permanecerão os benefícios?

A ansiedade por monetizar pode fazer com que o Estado financie mais facilmente aquilo que promete patente, produto, mercado ou retorno financeiro rápido, enquanto cuidado, prevenção, memória, autonomia territorial e continuidade do Bioma parecem pouco “inovadores”.

“Sanear” para quem?

O Estado afirma que precisa sanear as contas.

Em nome desse saneamento, ciência, saúde e educação podem ser apresentadas como despesas ajustáveis.

Mas o mesmo rigor não alcança todas as estruturas com a mesma intensidade.

Na decisão de junho de 2026, a taxa Selic foi fixada em 14,25% ao ano, mantendo elevado o custo do crédito e da dívida. (Banco Central do Brasil)

Ao mesmo tempo, STF e CGU continuavam exigindo transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares. A sistemática conhecida como “orçamento secreto” foi considerada inconstitucional, mas o controle sobre autoria, distribuição e execução dos recursos permanece em construção. Em julho de 2026, dirigentes de 21 partidos foram intimados a explicar seus mecanismos de alocação de emendas. (Serviços e Informações do Brasil)

Patrimônios e fluxos também podem desaparecer atrás de cadeias societárias, fundos e pessoas jurídicas.

A obrigatoriedade do formulário eletrônico de beneficiários finais, iniciada em 2026, procura identificar as pessoas naturais que controlam essas estruturas e fortalecer o combate à lavagem de dinheiro, corrupção e sonegação. (Serviços e Informações do Brasil)

Sanear o Estado não deveria significar retirar aquilo que sustenta a vida enquanto zonas de poder permanecem opacas.

Deveria significar revelar quem recebe, quem decide, quem influencia e quem suporta o corte.

NeuroDesafio Latam: todas as áreas são convocadas

O NeuroDesafio Latam não pertence apenas à neurociência.

Ele deve convocar pesquisadores de todas as áreas do saber a formar uma ciência Jiwasa.

Cada congresso poderia começar perguntando:

Quem participou da escolha desta pergunta?
Qual Corpo-Território será afetado?
Que Bioma sustentará a solução?
Quem financia o estudo?
Onde permanecerão os benefícios?

As Ciências Exatas podem tornar visíveis fluxos de dinheiro, energia e dados.

As Engenharias podem projetar com as comunidades, não apenas para elas.

As Ciências Biológicas podem estudar relações, não somente componentes.

A Saúde pode ligar doença a ambiente, renda, trabalho e cuidado.

As Agrárias podem medir água e continuidade do solo junto com produtividade.

As Sociais Aplicadas podem revelar concentração, beneficiários finais e poder contratual.

As Humanas podem reconstruir memória, conflito e sentido.

Linguística, Letras e Artes podem criar linguagens capazes de devolver a ciência ao mundo comum.

EEG e NIRS poderão investigar atenção, cooperação e carga cognitiva quando forem adequados.

Mas nenhum sinal cerebral provará a existência do Jiwasa.

A medida principal será outra:

A ciência ajudou pessoas diferentes a construir uma decisão comum sem apagar o dissenso?

Um “nós” que permaneça vivo

Jiwasa Real não é retorno romântico ao passado nem tecnologia salvadora.

É uma hipótese constituinte.

O Corpo-Território torna-se a unidade mínima do Estado.

O Bioma participa da origem das normas.

A atenção deixa de ser território livre para mineração.

Ciência e rendimento coletivo retornam às comunidades.

O poder não pode concentrar-se permanentemente.

As futuras gerações entram na decisão antes de nascer.

Talvez a nova democracia comece quando pudermos afirmar:

Não existe saneamento quando cortamos aquilo que sustenta a vida.
Não existe ciência comum quando poucos escolhem as perguntas.
Não existe progresso quando o Bioma paga a conta.
E não existe “nós” quando alguém precisa desaparecer para que ele seja formado.

O Jiwasa não estará pronto antes de nossa participação.

Ele nascerá quando ciência, Estado e comunidade aprenderem a perguntar, juntos, quem e o que precisa permanecer vivo para que ainda possamos dizer:

nós.

Referências essenciais

Wengrow, David. For an Anthropology and Archaeology of Freedom. Journal of the British Academy, 2022.

Espinosa Arango, Mónica L. Democracy Against the Grain: Indigenous Politics in Colombia’s Southwest Andes. Latin American and Caribbean Ethnic Studies, 2022.

Parisi, Giorgio. A maravilha dos sistemas complexos: uma jornada pelas descobertas da física contemporânea. Objetiva, 2022.

García Carrillo, Mercedes et al. Academic Dependency: The Influence of the Prevailing International Biomedical Research Agenda on Argentina’s CONICET. Heliyon, 2022.

Oliveira, Thaiane Moreira de; Bomfim, Marcus Vinicius de Jesus. Funding of Research Agendas About the Global South in Latin America and the Caribbean. Tapuya, 2023.

Kobellarz, Jordan K. et al. Bubble Reachers and Uncivil Discourse in Polarized Online Public Sphere. PLOS ONE, 2024.

CEPAL. Sociedade do cuidado para um mundo melhor. 2023.

CEPAL. Financiamento dos sistemas e políticas de cuidados na América Latina e no Caribe. 2024.

Banco Central do Brasil. Histórico das taxas de juros básicas. 2026.

Controladoria-Geral da União. Atuação em transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares. 2025–2026.

Receita Federal do Brasil. Formulário Digital de Beneficiários Finais. 2026.









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Jackson Cionek

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