Jackson Cionek
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Eu Ouço o Erro, Mas Não Processso - MMN Sem P300 no 0G

Eu Ouço o Erro, Mas Não Processso - MMN Sem P300 no 0G

EEG ERP P200 N200 P300 MMN 0G

Artigo:

Badalì, C., Wollseiffen, P., Puck, L., Klein, T., & Schneider, S. (2026). Neurophysiological markers of cognitive workload under altered gravity conditions using a gamified dual-task paradigm. Scientific Reports, 16(1). https://doi.org/10.1038/s41598-025-34426-0

Consciência em Primeira Pessoa:

Eu imagino meu corpo sentado, preso ao assento, e o mundo mudando de peso em poucos segundos. Em uma fase eu sinto “peso normal”. Na outra, meu corpo fica mais “pesado”. E então vem o 0G: a sensação de leveza, mas com um custo escondido — meu cérebro precisa continuar funcionando como se nada tivesse mudado.

Agora eu tenho uma tarefa principal contínua, tipo jogar Pac-Man, e ao mesmo tempo uma tarefa auditiva: sons padrão e sons-alvo; quando o som-alvo aparece, eu preciso apertar uma tecla rápido. A regra é clara: priorize o jogo. E é aqui que eu vejo o ponto mais humano do estudo: quando eu priorizo demais, eu posso continuar “indo bem”… e mesmo assim começar a falhar no que parece simples.



EEG ERP P200 N200 P300 MMN 0G
EEG ERP P200 N200 P300 MMN 0G

O que este estudo fez (do jeito que eu entendi no corpo)

Os pesquisadores mediram comportamento (tempo de reação e taxa de erro) e EEG (potenciais evocados e atividade eletrocortical) durante um dual-task: tarefa contínua + auditory oddball como tarefa secundária. Eles coletaram dados em condições de 1G, 1.8G e 0G ao longo de 25 parábolas consecutivas em voos parabólicos.
O estudo descreve que os voos foram conduzidos com apoio de organizações como a European Space Agency e o German Aerospace Center (DLR), e que o desenho foi intraindivíduo (cada participante como seu próprio controle).
No EEG, eles olharam especialmente para componentes clássicos: N100–P200 (mais “perceptivo”), N200/MMN (detecção automática de desvio) e P300 (processamento mais “alto”, de avaliação).

O que aconteceu comigo (se eu fosse um dos participantes)

Eu continuo jogando bem. Eu continuo navegando, evitando obstáculos, mantendo performance no meu “trabalho principal”. E, de fato, o estudo relata que a performance da tarefa principal e a atividade eletrocortical geral não mudaram entre os níveis de gravidade

Mas algo quebra no “lado B” do meu cérebro: no 0G, eu erro mais na tarefa secundária (sons-alvo) — comparado ao 1G e ao 1.8G.
Isso pra mim parece a assinatura de um gargalo: eu estou “funcionando”, mas a margem de atenção virou fina demais.

O EEG conta uma história muito alinhada com a nossa linguagem

  • Eu percebo o som: aparece um N100–P200 bem marcado, que o artigo interpreta como processamento perceptivo do estímulo auditivo.

  • Eu detecto “diferença” automaticamente: o estudo observa um N200 e discute ele como MMN — um mismatch que pode acontecer mesmo sem eu prestar atenção direta, e que tende a ser menos dependente de carga cognitiva.

  • Mas eu não chego na avaliação consciente: o ponto mais forte é a ausência de P300. O artigo sugere que isso acontece porque quase todos os recursos cognitivos foram sugados pela tarefa principal, reduzindo a discriminação dos estímulos auditivos.

Na minha tradução de “Zona”:

  • MMN presente = “meu corpo-cérebro ainda detecta o desvio”.

  • P300 ausente = “eu não tenho recurso para transformar isso em avaliação e decisão boa”.

É como se eu dissesse:

“Eu sinto que algo não bate… mas não tenho espaço mental para processar. Então eu sigo no automático.”

Ponte direta com o nosso eixo: conectoma “Pedra” e Zona 3

Quando a tarefa principal vira tirana (o “Pac-Man” eterno), eu fico bom em continuar — mas fico pior em corrigir. A primeira onda aparece (detecção), a segunda não fecha (avaliação). O corpo entra num modo que lembra muito o nosso agrupamento de conectoma “Pedra”: manter desempenho, defender a rota, reduzir variação, sobreviver ao fluxo.

E aqui tem uma provocação útil para redes sociais e desinformação (sem precisar moralizar):

  • Feed infinito + urgência + multitarefa = P300 socialmente fraco.

  • Eu continuo “respondendo”, mas com pouca segunda onda para revisar, comparar, checar, atualizar.

Um detalhe fisiológico que vale guardar (sem exagerar)

O artigo também lembra hipóteses de que a microgravidade pode vir com mudanças de volume sanguíneo cerebral e pressão intracraniana, com cascatas celulares possíveis. Não é a “explicação final”, mas é um pano de fundo plausível: meu corpo muda, e meu cérebro precisa alocar recursos dentro de um corpo que mudou.


Como eu usaria isso em um próximo experimento (do meu jeito)

  1. Trazer para a Terra como “simulador de Zona 3”
    Tarefa contínua gamificada + oddball auditivo, mas com estressores ecológicos (ruído, tempo curto, interrupções). Medir P300/MMN e ver quando o P300 “some”.

  2. Adicionar sinais do Corpo-Território
    Juntar EEG com HRV (RMSSD) e/ou fNIRS pré-frontal. Minha aposta: quando eu entro em “modo gargalo”, o P300 cai antes de eu perceber que estou piorando.

  3. Treino de automação para recuperar P300
    Treinar o “primário” até ficar mais automático e ver se o P300 reaparece — isto conversa diretamente com a conclusão do artigo sobre priorização de tarefas e automação via treino.


Nossa frase final

Quando a minha tarefa principal devora meus recursos, eu ainda detecto o erro (MMN) — mas eu paro de avaliar (P300).

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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States