Jackson Cionek
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Economia Energética dos Eus

Economia Energética dos Eus

FESBE 2026, HRV, respiração, EEG e fNIRS no custo neurofisiológico dos personagens sociais

Antes de falar de burnout, produtividade ou saúde mental, a gente volta ao corpo. Respiração. Mandíbula. Ombros. Peito. Olhos. Mãos. Postura. Quantas vezes o corpo já sabia que não queria mais sustentar um personagem, enquanto a mente ainda tentava justificar o papel?

Este segundo blog nasce de uma pergunta simples e profunda:

quanto custa, para o corpo, manter uma figura social que já perdeu sentido?

A programação preliminar da FESBE 2026 oferece um campo muito fértil para essa pergunta. Entre os temas apresentados, aparecem fundamentos fisiológicos e métodos de análise da variabilidade da frequência cardíaca, ritmos biológicos, neurobiologia da depressão, alterações cognitivas associadas a distúrbios metabólicos, exercício-nutriente no controle da massa muscular e discussões sobre ciência, saúde e sistemas corporais.

Na linguagem BrainLatam2026, isso permite ampliar a questão: o trabalho, a família, a religião, a política, a estética, a carreira e as redes sociais não exigem apenas pensamentos. Elas exigem personagens corporais. Cada personagem social tem uma respiração, uma postura, uma expressão facial, uma tensão muscular, um modo de olhar, um padrão de fala e uma forma de ocupar o território.

O “eu profissional” respira diferente do “eu filho”. O “eu líder” não ocupa o corpo da mesma forma que o “eu obediente”. O “eu religioso”, o “eu militante”, o “eu vendedor”, o “eu professor”, o “eu mãe”, o “eu pai”, o “eu adolescente aceito pelo grupo” e o “eu família margarina” não são apenas ideias. São organizações neurofisiológicas temporárias.

A hipótese BrainLatam2026 é que muitos sofrimentos modernos aparecem quando a memória continua sendo recrutada para sustentar um personagem que o corpo já não consegue mais manter com harmonia.

A gente usa memórias para fazer, não para ser. Memórias motoras, afetivas, cognitivas, religiosas, familiares e profissionais são chamadas para sustentar tarefas, gestos, discursos e papéis. Isso é necessário na vida cotidiana. Mas, quando o papel fica rígido demais, o corpo entra no “ter que ser”. A pessoa passa a representar antes de perceber. Continua executando um personagem mesmo quando Tekoha — a interocepção estendida — já sinaliza fadiga, medo, irritação, aperto, vazio ou perda de sentido.

É aqui que nasce a ideia de Economia Energética dos Eus.

Cada eu tensional tem custo. Alguns personagens restauram o corpo, aumentam flexibilidade, melhoram respiração e favorecem Zona 2. Outros drenam energia, reduzem variabilidade autonômica, aumentam tensão mandibular, rigidificam a postura, estreitam a atenção e empurram o corpo para Zona 3.

A ciência atual ajuda a dar materialidade a essa leitura. Estudos recentes associam burnout ocupacional a alterações na função executiva e em marcadores cardíacos, incluindo HRV, sugerindo que exaustão psicológica não é apenas “cansaço mental”, mas reorganização corpo-cérebro em situação de sobrecarga. (MDPI)

A HRV, especialmente medidas como RMSSD, é importante porque oferece uma janela para a regulação autonômica. Não mede “alma”, “verdade interior” ou “identidade”. Mede variações fisiológicas ligadas à flexibilidade do sistema nervoso autônomo. Quando a pergunta envolve estresse, segurança corporal, flexibilidade emocional e abertura metacognitiva, HRV/RMSSD se torna uma medida relevante dentro da própria lógica BrainLatam2026.

A respiração também é central. Revisões recentes mostram que a respiração lenta voluntária pode aumentar índices vagais de HRV e modular funções cardiovasculares, o que reforça a ideia de que ritmo respiratório não é detalhe: é parte da arquitetura fisiológica da regulação. (ScienceDirect)

Mas a Economia Energética dos Eus não pode parar no coração e na respiração. O cérebro também precisa ser escutado.

O EEG permite observar dinâmicas rápidas: atenção, erro, conflito, surpresa, fadiga, estados de vigilância e possíveis mudanças em microestados. Em um estudo sobre personagens sociais, o EEG poderia ajudar a observar quando um sujeito entra em modo de controle rígido, monitoramento excessivo ou automatismo defensivo.

O fNIRS/NIRS permite observar mudanças hemodinâmicas corticais, especialmente em córtex pré-frontal, durante tarefas mais ecológicas, sociais e naturalísticas. Revisões recentes indicam o uso crescente do fNIRS para investigar carga de trabalho ocupacional e segurança em ambientes reais, justamente por ser uma tecnologia portátil e compatível com tarefas mais próximas da vida cotidiana. (PMC)

Isso é decisivo para Brain Support/BrainLatam: EEG e fNIRS não entram como ornamento tecnológico. Entram porque ajudam a perguntar, com mais precisão:

que tipo de corpo-cérebro aparece quando uma pessoa precisa sustentar um personagem social sob pressão?

Um desenho experimental BrainLatam2026 poderia comparar três situações:

  1. uma tarefa neutra;

  2. uma tarefa profissional realista;

  3. uma tarefa de representação social intensa, como defender uma imagem de sucesso, autoridade, obediência ou pertencimento familiar.

Durante essas tarefas, poderíamos medir EEG, fNIRS, HRV/RMSSD, respiração, EMG de mandíbula/trapézio, GSR, postura e fala. O objetivo não seria rotular pessoas, mas identificar padrões: quando o corpo entra em coerência? Quando entra em sobrecarga? Quando há Zona 2? Quando o personagem social sequestra o corpo para Zona 3?

Aqui entram os avatares.

Iam ajuda a perguntar o que regula ou desregula esse corpo em primeira pessoa. APUS observa como o ambiente, a postura e o território reorganizam o corpo. Tekoha percebe o estado interno: aperto, segurança, fadiga, conforto, pertencimento ou perda de sentido. Math/Hep lembra que a hipótese precisa ser testável, com uma variável por vez, sem transformar metáfora em conclusão. Os próprios avatares BrainLatam2026 já indicam métricas como EEG, fNIRS, HRV, respiração, GSR, movimento e análise experimental como guias de recorte.

A crítica decolonial aparece quando a gente pergunta: quais personagens sociais são exigidos na América Latina? O jovem de periferia precisa sustentar o “eu forte” para sobreviver? A mulher acadêmica precisa sustentar o “eu impecável” para ser respeitada? O trabalhador precarizado precisa sustentar o “eu disponível” mesmo em exaustão? O pesquisador latino precisa representar excelência em estruturas que muitas vezes não oferecem as mesmas condições materiais dos grandes centros globais?

Nem todo burnout é individual. Às vezes, é território. Às vezes, é classe. Às vezes, é racismo. Às vezes, é gênero. Às vezes, é algoritmo. Às vezes, é uma sociedade inteira exigindo personagens caros demais para corpos que já estão tentando apenas continuar.

Por isso, a Economia Energética dos Eus também conversa com o DREX Cidadão. Se parte da exaustão social nasce da necessidade permanente de performar segurança econômica, sucesso e pertencimento, uma política de metabolismo cidadão poderia reduzir a pressão basal sobre o corpo social. O DREX Cidadão, nessa leitura, não é apenas renda ou crédito: é energia mínima para que o corpo não precise viver em Zona 3 permanente.

A pergunta final não é apenas “como produzir mais?”. A pergunta BrainLatam2026 é mais profunda:

que personagens sociais estamos obrigando os corpos a sustentar — e qual é o custo fisiológico disso?

Quando o corpo muda, o personagem precisa poder mudar. Quando a respiração endurece, a mandíbula trava, o RMSSD cai, o pré-frontal sobrecarrega e o sentido desaparece, talvez o problema não seja falta de força. Talvez seja excesso de representação.

A Neurociência Decolonial começa quando a gente para de perguntar apenas “quem você é?” e começa a perguntar também:

quanto custa, ao seu corpo, continuar sendo isso?


Referências recentes que ratificam este texto

  1. Pihlaja et al. (2022) — estudo associando burnout ocupacional a alterações em funções executivas, fisiologia cardíaca e atividade física diária, sugerindo HRV e wearables como possíveis biomarcadores de sobrecarga. (MDPI)

  2. Laborde et al. (2022) — revisão sistemática e meta-análise sobre respiração lenta voluntária e HRV, mostrando efeitos sobre variabilidade cardíaca vagal. (ScienceDirect)

  3. Guendelman et al. (2024) — estudo sobre mecanismos cerebrais relacionados à modulação da HRV durante regulação emocional, conectando HRV e ativação em regiões frontais/motoras. (Nature)

  4. Gemmerich et al. (2025) — revisão sistemática sobre aplicação de fNIRS em estudos de carga de trabalho ocupacional, destacando potencial em ambientes mais naturalísticos. (PMC)

  5. Han et al. (2023) — revisão sobre uso de fNIRS em estudos de cognição e segurança do trabalhador, especialmente em contextos aplicados como construção civil. (Frontiers)

  6. Park et al. (2023) — estudo usando fNIRS e modelos computacionais para classificar carga mental, relacionando atividade pré-frontal e desempenho cognitivo. (Springer Link)

  7. Abdalhadi et al. (2024) — revisão sistemática sobre uso combinado de EEG e fNIRS para estudar efeitos do estresse agudo na tomada de decisão. (HAL)

  8. Asgari et al. (2024) — revisão sobre carga cognitiva associada ao uso de prontuários eletrônicos e burnout em profissionais de saúde, útil para pensar personagens profissionais e sobrecarga tecnocognitiva.







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States