Dados não são significado
Dados não são significado
O signo só ganha vida no encontro
O que significa a palavra rio?
Para uma base geográfica, pode ser uma coordenada, uma extensão, uma vazão e uma classificação hidrográfica. Para uma empresa, pode representar disponibilidade hídrica. Para uma criança, o lugar onde aprendeu a nadar. Para quem perdeu alguém numa enchente, pode recrutar medo.
E para o povo Krenak, o Rio Doce é Watu. Estudos etnográficos descrevem uma relação que vai muito além da ideia ocidental de “recurso hídrico”: Watu aparece como parente, alguém que acolhe, aconselha, protege e participa da própria construção da pessoa Krenak. (ScienceDirect)
O curso de água pode continuar materialmente no mesmo lugar.
Mas o seu significado não está contido apenas na água.
É nesse intervalo entre dado, signo, relação e experiência que surge a pergunta deste segundo blog:
Se duas pessoas recebem exatamente o mesmo dado, receberam necessariamente o mesmo significado?
Não.
E talvez esse seja um dos limites mais importantes para compreendermos as Inteligências Artificiais.
O dado pode viajar. O significado precisa encontrar alguém
Um arquivo pode ser duplicado milhões de vezes sem alterar um único bit.
A mesma fotografia pode chegar a dois celulares.
A mesma palavra pode aparecer em duas telas.
Mas aquilo que acontece depois depende também de quem encontrou o signo.
Maria Eunice Quilici Gonzalez e Mariana Vitti Rodrigues propõem justamente uma abordagem semiótica da informação para compreender sociedades orientadas por dados. Em vez de tratar informação como algo completamente separado da ação, chamam atenção para sua participação na dinâmica dos hábitos que orientam comportamentos. (Sage Journals)
Em trabalho posterior, Gonzalez e colaboradores acrescentam que pessoas podem conservar capacidade de decisão relativamente racional enquanto suas opiniões são influenciadas por informação insuficiente ou distorcida, hábitos e disposições emocionais já adquiridas.
Isso é fundamental para a Consciência 5D.
O signo que chega não encontra um Corpo-Território vazio.
Encontra história.
Memórias.
Hábitos.
Experiências.
Estados corporais.
Outras representações já mais ou menos disponíveis.
Por isso estamos propondo uma frase BrainLatam:
O encontro acrescenta um nome ao objeto e uma possibilidade ao sujeito.
Ou, em uma formulação ainda mais provocadora:
O contato do sujeito com o objeto muda o substantivo possível do objeto - e o sujeito capaz de nomeá-lo.
Não estamos dizendo que a gramática necessariamente muda nem que o objeto físico precisa sofrer uma transformação material.
Estamos dizendo que o objeto enquanto signo pode mudar dentro daquela relação.
A mesma coisa pode entrar em relações diferentes
Uma mãe carinhosa observa uma pessoa desconhecida caminhando em direção ao seu bebê.
Se percebe ameaça, pode agir agressivamente.
Ela não deixou de ser uma mãe carinhosa.
Naquele encontro, justamente o cuidado pode ter recrutado uma forma agressiva de proteção.
Ao mesmo tempo, o outro também mudou semioticamente:
pessoa → desconhecido → possível ameaça → alguém de quem proteger meu filho.
Por isso:
O encontro muda os dois lados da frase.
Essa ideia encontra uma ressonância importante no pensamento latino-americano.
O biólogo chileno Humberto Maturana descrevia a linguagem não como simples transferência de conteúdos prontos entre indivíduos, mas como um viver em coordenações recorrentes de ações. Em sua perspectiva, conversação entrelaça linguagem e emoção, e os significados não estão simplesmente guardados dentro das palavras. (PubMed)
Uma palavra, portanto, pode permanecer foneticamente igual e participar de relações diferentes.
“Rio” não precisa significar a mesma coisa para um engenheiro que mede vazão e para alguém que chama aquele rio de avô.
Quando o objeto também pode ocupar a posição de sujeito
Aqui, a Neurociência Decolonial pode conversar com o perspectivismo ameríndio sem transformar centenas de povos originários em uma única cultura.
Em cosmologias amazônicas analisadas pelo antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, a posição de sujeito não pertence necessariamente apenas ao humano. O ponto de vista participa da constituição dessa posição: seres que a ontologia ocidental trataria exclusivamente como objetos podem ocupar posições de sujeito dentro de outras relações. (Scielo)
Há ainda evidências linguísticas de relações inscritas na própria estrutura de algumas línguas Tupí-Guaraní, onde morfemas relacionais podem marcar dependências entre nomes, possuidores e outras unidades. Isso não prova uma cosmologia pela gramática, mas mostra algo importante: nem todas as línguas recortam relações entre entidades da mesma maneira. (Scielo)
Podemos então perguntar:
Quando uma IA traduz todos esses mundos para grandes espaços vetoriais, quanto da relação sobrevive junto com a palavra?
A IA pode possuir a palavra sem ter vivido a relação
Um grande modelo de linguagem pode possuir milhares de textos sobre o Rio Doce.
Pode saber que os Krenak o chamam de Watu.
Pode explicar que ele é tratado como parente.
Pode escrever sobre mineração, ecologia, antropologia e direitos indígenas.
Isso demonstra uma extraordinária capacidade de trabalhar com formas e relações presentes nos registros.
Mas não resolve automaticamente a questão do significado vivido.
Tolga Yıldız propôs recentemente uma distinção útil entre forma, coordenação e ratificação. Sistemas contemporâneos de IA podem produzir formas linguísticas extremamente convincentes e participar de coordenações práticas, mas o estatuto social do significado continua dependendo de processos de aceitação, correção, reutilização, autoridade e vida institucional. (ResearchGate)
Isso nos permite evitar dois extremos.
Não precisamos dizer:
“A IA apenas repete palavras e não faz nada relevante.”
Mas também não precisamos concluir:
“Se fala fluentemente sobre Watu, vive a relação que Watu significa.”
A fluência mostra competência.
Não demonstra, sozinha, equivalência entre modos de existir.
Consciência 5D: o signo encontra espaços já disponíveis
No modelo BrainLatam de Consciência 5D, estamos propondo que representações mais recrutadas tendem a dispor de caminhos mais facilmente reativáveis.
No que temos chamado de conectoma-pedra, ou em situações de pensar rápido, espaços fortemente recrutados podem dificultar temporariamente que outras possibilidades menos ativadas participem do movimento representacional.
Isso permanece como uma hipótese BrainLatam a ser investigada, e não como um mecanismo neurocientífico já demonstrado.
Mas produz uma pergunta muito simples:
Será que vemos aquilo que chegou até nós ou aquilo que nossa configuração atual conseguiu recrutar a partir do que chegou?
Uma pessoa pode receber a palavra “floresta” e recrutar:
madeira.
Outra:
carbono.
Outra:
casa.
Outra:
ancestralidade.
Outra:
medo.
O dado é o mesmo.
O movimento produzido não necessariamente é.
Por isso outra frase pode acompanhar esta série:
Nenhum signo entra duas vezes no mesmo Corpo-Território, porque o encontro anterior já participou de sua história.
Podemos medir alguma coisa desse encontro?
É aqui que EEG e fNIRS tornam esta discussão particularmente interessante.
Uma revisão sistemática publicada em 2022 examinou 29 estudos de hyperscanning envolvendo comunicação verbal, utilizando principalmente EEG e fNIRS. Os autores encontraram evidências recorrentes de alinhamento inter-cerebral durante comunicação, especialmente em regiões frontais e temporoparietais. A própria revisão, porém, faz uma distinção importante: observar sincronização neural não permite concluir automaticamente que duas pessoas atribuíram exatamente o mesmo significado ao que estavam comunicando. (ScienceDirect)
Uma meta-análise também publicada em 2022 reuniu 13 estudos e aproximadamente 890 participantes em paradigmas cooperativos com fNIRS hyperscanning. Encontrou sincronização inter-cerebral significativa principalmente em regiões pré-frontais e temporoparietais. (eNeuro)
Mas trabalhos mais recentes mostram por que devemos ter cautela.
Em 2026, pesquisadores da Universidad Adolfo Ibáñez, no Chile, utilizaram EEG móvel simultâneo em díades latino-americanas realizando uma tarefa cooperativa de Jenga. Houve aumento de determinadas medidas de sincronização, mas análises com pares simulados mostraram que parte delas poderia estar ligada à tarefa compartilhada, e não necessariamente a um acoplamento específico entre aqueles dois indivíduos. Os autores também encontraram papel importante de componentes aperiódicos do sinal. (ScienceDirect)
Esse resultado é precioso para nós:
Estar sincronizado não significa automaticamente estar significando a mesma coisa.
É precisamente essa diferença que podemos investigar.
Neurociência Decolonial: não comparar apenas cérebros, mas relações
A América Latina possui uma oportunidade especial nesse campo.
Edgar Guevara, do México, Rickson Mesquita, brasileiro, e Felipe Orihuela-Espina publicaram em 2025/2026 um panorama do desenvolvimento do fNIRS na América Latina, destacando crescimento da autonomia regional e a possibilidade de utilizar essa tecnologia para perguntas relevantes aos nossos próprios contextos. (PubMed Central (PMC))
Talvez uma Neurociência Decolonial não deva perguntar apenas se “cérebros de populações diferentes respondem de maneira diferente”.
Podemos formular algo mais relacional:
Quando pessoas de histórias e territórios diferentes conseguem construir um significado comum, o que acontece entre seus sinais neurais?
E, inversamente:
duas pessoas podem utilizar exatamente a mesma palavra enquanto seus Corpos-Território permanecem em relações profundamente diferentes com aquilo que ela nomeia?
Pergunta NeuroDesafio LATAM
Como patrocinadora do NeuroDesafio LATAM, a BrainLatam propõe:
A sincronização neural entre duas pessoas aumenta quando elas atribuem significado semelhante ao mesmo signo, mesmo quando utilizam palavras diferentes para expressá-lo?
Um experimento latino-americano de EEG/fNIRS hyperscanning poderia comparar quatro situações: mesma palavra com significado semelhante; mesma palavra com significados diferentes; palavras diferentes para um significado compartilhado; e palavras e significados diferentes.
O registro neural seria combinado com comportamento, diálogo e relatos em primeira pessoa.
Assim poderíamos perguntar se o alinhamento entre dois Corpos-Território acompanha principalmente a forma do signo ou a convergência da relação construída em torno dele.
Talvez então descubramos que compreender alguém não seja simplesmente receber corretamente seus dados.
Talvez seja conseguir construir, por alguns instantes, uma relação suficientemente próxima para que um signo possa mover dois mundos.
Dados podem ser transmitidos. Significados precisam ser encontrados.
Referências comentadas — uma segunda leitura do Blog 02
Rodrigues, M. V.; Gonzalez, M. E. Q. (2018). “Semiotic information in data-driven societies: Where are we heading to?” — Introduz a informação semiótica como ferramenta para pensar autonomia e hábitos em sociedades orientadas por dados. Fundamenta a distinção deste blog entre possuir informação e produzir significado na ação. (Sage Journals)
Gonzalez, M. E. Q. et al. (2023). “Hábitos e racionalidade: um estudo filosófico-interdisciplinar sobre autonomia na era dos Big Data”. — Mostra que informação, hábitos e disposições anteriores participam das decisões. Ajuda a sustentar nossa proposição de que o signo nunca chega a um Corpo-Território sem história.
Maturana, H. (1989). “Lenguaje y realidad: el origen de lo humano”. — O biólogo chileno descreve linguagem como coordenações consensuais recorrentes de ações e conversa como entrelaçamento de linguagem e emoção. Permite pensar significado menos como conteúdo armazenado na palavra e mais como algo produzido no viver relacional. (PubMed)
Viveiros de Castro, E. (1996). “Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio”. Mana. — Mostra que, em determinadas cosmologias ameríndias, a posição de sujeito depende do ponto de vista e não pertence exclusivamente ao humano. Ajuda a deslocar a pergunta “o que é este objeto?” para também perguntar “quem ele pode ser nesta relação?”. (Scielo)
Oliveira et al. (2022). “From the muddy banks of the Watu: The Krenak and the Rio Doce mining disaster in Brazil”. — Descreve Watu não simplesmente como recurso hídrico, mas como parente na experiência Krenak. É o exemplo central deste blog porque mostra que a mesma materialidade pode participar de universos de significado radicalmente diferentes conforme a relação Corpo-Território. (ScienceDirect)
Kelsen, B. A. et al. (2022). “What has social neuroscience learned from hyperscanning studies of spoken communication? A systematic review”. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 132, 1249–1262. — Revisou 29 estudos de comunicação verbal com predominância de EEG/fNIRS e encontrou alinhamento principalmente frontal e temporoparietal. É a base neurocientífica para perguntar se comunicação e construção de significado podem possuir correlatos interpessoais mensuráveis, sem concluir que sincronização equivale a significado compartilhado. (ScienceDirect)
Czeszumski, A. et al. (2022). “Cooperative Behavior Evokes Interbrain Synchrony in the Prefrontal and Temporoparietal Cortex”. eNeuro, 9(2). — Meta-análise de 13 estudos de fNIRS hyperscanning e cerca de 890 participantes encontrou sincronização durante cooperação em regiões frontais e temporoparietais. Demonstra que interações reais entre pessoas podem produzir regularidades inter-cerebrais quantificáveis. (eNeuro)
Valenzuela, L. et al. (2026). “Aperiodic activity shapes inter-brain synchrony during cooperative puzzle solving”. NeuroImage, 338, 122116. — Estudo com EEG móvel em participantes latino-americanos mostra que parte da sincronização durante cooperação pode refletir tarefa compartilhada ou propriedades aperiódicas e não simplesmente um “mesmo pensamento”. Essa cautela é fundamental para nossa hipótese: sincronização neural não deve ser confundida com igualdade de significado. (ScienceDirect)
Guevara, E.; Mesquita, R. C.; Orihuela-Espina, F. (2026). “Emerging panorama of functional near-infrared spectroscopy in Latin America”. Neurophotonics, 13(S1), S13002. — Pesquisadores do México e Brasil descrevem o crescimento regional do fNIRS e a necessidade de ampliar autonomia, infraestrutura e perguntas relevantes à América Latina. Justifica nossa proposta de que hyperscanning e neuroimagem portátil sejam usados para investigar relações produzidas em nossos próprios territórios. (PubMed Central (PMC))
Yıldız, T. (2026). “From Form to Ratification: Reassessing AI ‘Communication’ After the Facebook Chatbot Episode”. — Distingue forma linguística, coordenação e ratificação social. Ajuda a evitar a conclusão de que uma IA que produz linguagem fluente necessariamente vive ou compartilha o significado que consegue representar formalmente. (ResearchGate)
BrainLatam — hipótese de Consciência 5D e Corpo-Território. — Neste blog avançamos duas proposições que deverão ser testadas ao longo da série: “O encontro muda os dois lados da frase” e “O encontro acrescenta um nome ao objeto e uma possibilidade ao sujeito.” Elas conectam Semiótica, hábitos, relacionalidade ameríndia e a hipótese de que diferentes espaços representacionais já recrutados participam daquilo que um novo signo poderá significar.