Jackson Cionek
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Da percepção à avaliação - como o ambiente passa de imagem a valor

Da percepção à avaliação - como o ambiente passa de imagem a valor

Uma árvore aparece na tela.

Ao redor dela vemos prédios, uma calçada, carros e uma abertura para o céu.

Pouco depois alguém responde:

bonito.

seguro.

agradável.

hostil.

um lugar onde eu gostaria de estar.

Parece simples: vemos uma imagem e atribuímos um valor.

Mas entre aquilo que existia no ambiente fotografado, os pixels que chegam aos nossos olhos e o julgamento que finalmente conseguimos expressar há vários acontecimentos diferentes.

É justamente por conseguir separar temporalmente parte desses processos que merece destaque a iniciativa de Carolina Zähme, Isabelle Sander, Aleksandrs Koselevs, Simone Kühn e Klaus Gramann, autores de From perception to appraisal: Brain responses to natural and built features in urban environments, publicado em 2026 em Brain and Environment.

O estudo mostra que características naturais e construídas das cenas aparecem associadas a respostas EEG em momentos distintos, enquanto avaliações subjetivas surgem relacionadas a componentes posteriores. Os autores encontraram, entre outros resultados, associações da vegetação com P1, de características visuais construídas com N1 e de avaliações posteriores com P3/LPP. (ScienceDirect)

Isso oferece uma oportunidade importante para perguntar:

processar uma imagem, Perceber e Julgar são realmente a mesma coisa?

Na leitura Religare, não.

O mérito de observar o tempo entre imagem e avaliação

Zähme e colaboradores apresentaram fotografias de ambientes urbanos aos participantes enquanto registravam EEG e posteriormente relacionaram características das cenas às avaliações subjetivas.

O resultado central não é simplesmente que “as pessoas gostam mais de verde”.

Mais interessante é a separação temporal sugerida pelos dados: propriedades visuais das cenas aparecem associadas a respostas neurais relativamente precoces, enquanto aspectos relacionados à avaliação aparecem posteriormente. (ScienceDirect)

Isso permite abandonar uma sequência excessivamente comprimida:

vejo → gosto ou não gosto.

Entre uma coisa e outra há processamento.

Mas antes de utilizarmos esse resultado para pensar consciência, precisamos fazer uma distinção ainda mais fundamental.

Uma fotografia não é um pedaço menor da realidade

Uma fotografia não é um recorte da realidade preservado em outra escala.

O recorte acontece durante a captura.

Uma câmera é posicionada diante de um acontecimento físico. Seu enquadramento seleciona determinada parte do campo luminoso disponível.

Temos então:

realidade → recorte da captura.

Mas aquilo que segue já não é um pequeno pedaço daquela realidade.

Parte da luz proveniente do recorte é convertida pelo sistema fotográfico em sinais.

Há uma transdução.

A informação é codificada, armazenada e posteriormente utilizada por outro sistema para produzir uma imagem.

Quando essa fotografia aparece em uma tela, não existe na tela nenhum pedaço daquela árvore.

Nenhum fragmento daquele prédio.

Nenhuma pequena porção daquele céu.

Existem pixels produzindo luz segundo uma determinada organização.

Portanto:

realidade

recorte na captura

transdução

codificação

nova transdução na tela

pixels / luz

A tela não contém “realidade reduzida”.

Contém uma nova configuração material que representa informações derivadas de um recorte anterior da realidade.

Essa diferença é essencial para interpretar o experimento.

Os participantes de Zähme et al. não estavam vivenciando aquelas ruas.

Estavam diante de um novo acontecimento físico: luz produzida por uma tela cuja organização foi derivada da transdução de fotografias daqueles ambientes.

Isso não diminui o valor do estudo.

Ao contrário.

Permite compreender com maior precisão exatamente aquilo que foi investigado.

A câmera recorta. O sistema transduz. A tela representa. O Corpo-Território vive.

Na BrainLatam temos desenvolvido essa diferença justamente porque uma representação visual do território não pode ser confundida com a experiência de viver nele.

Uma tela pode representar uma árvore.

Mas não oferece simultaneamente ao corpo:

o cheiro da vegetação;

a temperatura daquele ar;

o vento sobre a pele;

a umidade;

a pressão dos pés contra aquele solo;

o movimento necessário para subir aquela rua;

o ruído do trânsito;

a posição do corpo no espaço;

o estado visceral produzido por caminhar ali;

ou a presença física de outros corpos.

Em trabalhos recentes, temos utilizado uma cartografia operacional ampliada dos sentidos justamente para não reduzir experiência humana aos cinco sentidos escolares. A proposta BrainLatam trabalha com visão, audição, olfato, paladar, tato, propriocepção, interocepção, equilíbrio, nocicepção, termocepção, quimiorrecepção interna e, como hipótese própria, o Quorum Sensing Humano — QSH, relacionado ao pertencimento bioafetivo. (brainlatam)

Não afirmamos que exista uma classificação neurocientífica consensual de exatamente doze sentidos.

É uma cartografia conceitual e operacional.

Seu objetivo é lembrar algo simples:

o Corpo-Território vive uma realidade muito mais ampla do que aquilo que uma câmera consegue transduzir visualmente.

Mesmo diante da fotografia, porém, não existe apenas visão

Precisamos evitar o erro contrário.

Embora a fotografia forneça predominantemente informação visual sobre o ambiente representado, o participante que olha a tela não se transforma em um sistema visual isolado.

Enquanto observa os pixels:

respira;

possui frequência cardíaca;

mantém postura;

sente temperatura;

possui propriocepção;

interocepção;

memórias;

expectativas;

afetos;

história.

A tela produz luz.

Mas essa luz encontra um Corpo-Território inteiro.

É justamente por isso que duas pessoas podem encontrar a mesma configuração de pixels e produzir experiências diferentes.

Processamento ainda não é Perceber

Aqui chegamos a uma diferença importante entre o vocabulário convencional da neurociência cognitiva e a hipótese de Consciência 5D.

Em neurociência, é perfeitamente adequado falar em processamento perceptual visual para eventos neurais muito precoces.

Na Consciência 5D, porém, propomos reservar Perceber para uma condição que exige consciência em primeira pessoa.

Nossa formulação é:

Consciência é um movimento que se percebe Ser dentro do metabolismo produzido.

Essa é uma hipótese conceitual BrainLatam, não uma definição consensual da neurociência.

O sistema nervoso pode processar características do estímulo sem que toda essa atividade seja aquilo que chamamos de experiência consciente.

Por isso, na nossa leitura, seria mais prudente imaginar:

pixels / luz

transdução sensorial

processamento neural

interação com espaços de representação ativados e pré-ativados

Perceber consciente

Fazer / Planejar / Julgar

Não estamos dizendo que P1 seja “pré-consciência”.

Não estamos dizendo que P3 seja “consciência”.

Nem que LPP seja diretamente “julgamento”.

Componentes ERP são eventos neurofisiológicos. As categorias da Consciência 5D são uma tentativa de construir uma hipótese integrativa sobre como alguns desses processos podem participar da experiência em primeira pessoa.

Depois que percebemos, podemos fazer coisas diferentes

No Religare, o Perceber não encerra o processo.

Ele abre possibilidades.

Podemos:

Fazer — Ciência.

Planejar — Religião.

Julgar / Escolher — Política.

Imagine alguém que percebe:

“esta rua tem pouca iluminação.”

Pode simplesmente mudar de caminho.

Fazer.

Pode representar:

“quando eu voltar aqui à noite, talvez seja perigoso.”

Planejar.

Pode concluir:

“esta é uma rua insegura.”

Julgar.

As três operações podem ocorrer rapidamente e participar umas das outras, mas não são necessariamente o mesmo processamento.

É precisamente por isso que o estudo de Zähme é tão interessante para nós: ele oferece evidências de que características visuais e avaliações subjetivas posteriores podem possuir dinâmicas temporais diferentes. (ScienceDirect)

Julgar precisa recrutar recursos que perceber não necessariamente utilizou

Quando dizemos Julgar, não estamos falando apenas em experimentar agrado ou desagrado.

Um julgamento pode exigir:

comparação;

inferência;

memória;

critérios;

alternativas;

previsão de consequências.

Os pesquisadores mexicanos Karla Mercado e Víctor de Lafuente, da Universidad Nacional Autónoma de México, discutem evidências da participação de regiões pré-frontais e pré-motoras em julgamentos inferenciais. (PubMed)

Isso ajuda a dialogar com a metáfora BrainLatam de Pedra–Papel–Tesoura.

Pedra representa respostas mais rápidas, habituais e disponíveis.

Tesoura — Pense Devagar representa maior recorte, comparação, análise e recrutamento deliberativo, no qual redes de controle, incluindo regiões pré-frontais, podem ganhar importância.

Não estamos dizendo que todo julgamento “acontece no córtex pré-frontal”.

O cérebro funciona em redes.

Mas julgamentos deliberativos e inferenciais podem exigir recrutamentos adicionais além dos processos envolvidos na simples detecção de características do estímulo.

O território também participa daquele que julga

É aqui que pesquisadores latino-americanos nos ajudam a ampliar a pergunta.

Agustín Ibáñez e colaboradores, em 2024, propuseram uma perspectiva neuroecológica que integra exposoma físico e social, cérebro, corpo e ambiente. O argumento central é que condições ambientais não deveriam ser tratadas apenas como cenário externo à saúde cerebral. (PubMed)

Agustina Solera e Mariana Jesús Ortecho, discutindo ambientes urbanos nos Andes, aproximam corpo, território, colonialidade e diferentes modos de compreender a relação entre social e natural. (Springer)

E o arqueólogo argentino Alejandro Haber questiona a imagem de um conhecimento produzido por um observador completamente separado daquilo que conhece. Em sua proposta, conhecimento também precisa ser compreendido como relação. (revista.sabnet.org)

Esses trabalhos não explicam P1, N1 ou LPP.

Mas ajudam a formular uma pergunta necessária:

de onde julgamos aquilo que percebemos?

O valor não estava dentro dos pixels

Uma mesma imagem pode ser julgada como:

“bonita”;

“abandonada”;

“tranquila”;

“ameaçadora”;

“familiar”.

A configuração de pixels apresentada pode ser a mesma.

Mas os Corpos-Territórios que a encontram não são.

Isso significa que o valor não estava guardado dentro da fotografia esperando ser extraído.

Mas também não surge de um “eu” completamente independente do mundo.

Ele emerge de um encontro entre:

o estímulo presente;

o Corpo-Território que o encontra;

as representações disponíveis;

a história daquele corpo;

e os processos recrutados para avaliar.

Esse talvez seja um dos maiores méritos da iniciativa de Zähme e colaboradores: permitir observar experimentalmente parte do intervalo entre características visuais e avaliação.

O Religare acrescenta outra camada.

A câmera recortou.

O sistema transduziu.

A tela representou.

O cérebro processou.

O Corpo-Território Percebeu.

E, somente então, podemos perguntar:

o que fará com aquilo que percebeu?

Fará?

Planejará?

Julgará?

Talvez compreender como uma imagem adquire valor exija justamente não confundir essas etapas.

E talvez a metacognição comece quando conseguimos perceber também isto:

não apenas o que estou julgando, mas o processo pelo qual meu Corpo-Território está se tornando aquele que julga.

Referência principal

Zähme, C., Sander, I., Koselevs, A., Kühn, S., & Gramann, K. (2026). From perception to appraisal: Brain responses to natural and built features in urban environments. Brain and Environment, 8, 100028. DOI: 10.1016/j.braen.2026.100028.

Referências complementares

Haber, A. (2022). O conhecimento é o relacionamento: cenas de gnosiologia catamarcana. Revista de Arqueologia, 35(1), 39–52. DOI: 10.24885/sab.v35i1.957.

Ibáñez, A., Melloni, L., Świeboda, P., et al. (2024). Neuroecological links of the exposome and One Health. Neuron, 112(12), 1905–1910. DOI: 10.1016/j.neuron.2024.04.016.

Mercado, K., & de Lafuente, V. (2022). Prefrontal and Premotor Cortices Encode Inference Judgements. Neuroscience, 485, 145–146. DOI: 10.1016/j.neuroscience.2022.01.011.

Solera, A., & Ortecho, M. J. (2023). The Territory of Our Body: A Conversation on Urban Environments in the Andes and Their Bodies. In Contours of Feminist Political Ecology, 289–310. DOI: 10.1007/978-3-031-20928-4_12.

BrainLatam (2025). Percepção é Realidade Individual — Um Ensaio sobre Cognição, Arte e Metabolismo Social. Apresenta a cartografia ampliada dos sentidos e a hipótese do Quorum Sensing Humano.

BrainLatam (2026). Um mesmo evento — metabolismo, movimento e consciência. Desenvolve a hipótese da Consciência 5D e a formulação da consciência como movimento que se percebe Ser dentro do metabolismo produzido.









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New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States