Jackson Cionek
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Corpo - dois cérebros não bastam - cérebro, coração e relação

Corpo - dois cérebros não bastam - cérebro, coração e relação

Quando estudamos duas pessoas interagindo, quase sempre começamos desenhando duas unidades.

Cérebro A ⇄ Cérebro B.

Essa imagem ajudou a consolidar o hyperscanning: registrar simultaneamente dois cérebros e investigar como suas dinâmicas se aproximam, se afastam ou se organizam durante uma interação.

Mas Hong, Moore e Quiñones-Camacho propõem, em 2026, que talvez seja preciso olhar para mais de um sistema ao mesmo tempo.

A pergunta deles é prática e científica: como estudar, de forma temporalmente sincronizada, a co-regulação entre cuidador e criança considerando atividade cerebral, fisiologia cardíaca e comportamento?

Em vez de tratar sincronização neural e fisiológica como fenômenos separados, os autores constroem um protocolo multimodal que integra fNIRS, ECG, vídeo comportamental e estímulos experimentais em um mesmo eixo temporal. O objetivo é permitir que acontecimentos específicos da interação possam ser relacionados, com maior precisão, às mudanças neurais e autonômicas observadas nos dois participantes. Springer

É um avanço metodológico importante.

Mas talvez ele abra uma pergunta ainda maior:

se estamos estudando uma relação, onde está a relação dentro de nossos dados?

O que Hong, Moore e Quiñones-Camacho realmente propõem?

O artigo não é simplesmente a apresentação de um novo equipamento.

É um guia prático para tornar possível um desenho experimental que ainda é tecnicamente difícil: registrar simultaneamente dois participantes — inclusive crianças pequenas — usando diferentes modalidades sem perder a correspondência temporal entre elas.

Os autores utilizam NIRSport2/NIRx para fNIRS, MindWare BioLab para ECG, Mangold VideoSyncPro para vídeo e PsychoPy para tarefas e marcadores de eventos. O PsychoPy envia triggers que chegam aos diferentes sistemas, permitindo alinhar início das tarefas, estímulos, respostas, comportamento, ECG e fNIRS. O vídeo pode então ser relacionado quadro a quadro aos acontecimentos fisiológicos registrados naquele mesmo intervalo. Springer

Esse detalhe é fundamental.

Não basta saber que, ao longo de vinte minutos, duas pessoas apresentaram alguma correlação fisiológica.

É muito mais informativo saber o que estava acontecendo quando aquela correlação apareceu.

O estudo longitudinal em andamento que sustenta o protocolo acompanha crianças de 3 a 7 anos, em duas visitas laboratoriais separadas aproximadamente por um ano. Após tarefas individuais e um intervalo, cuidador e criança realizam seis tarefas diádicas breves, somando cerca de 35 minutos. Elas foram escolhidas para produzir diferentes formas de interação: navegar conjuntamente por situações de incerteza, resolver problemas e brincar de maneira menos estruturada. Para manter engajamento, as atividades são apresentadas como partes de uma “caça ao tesouro”. Springer

Os autores relatam ainda dados de viabilidade de 85 participantes: 89% completaram pelo menos cinco das seis tarefas diádicas. Isso é relevante porque colocar fNIRS e ECG simultaneamente em crianças pequenas, mantendo interação natural suficiente para estudar co-regulação, é metodologicamente exigente. Springer

Portanto, o paper oferece algo mais interessante que “cérebro + coração”.

Ele oferece a possibilidade de perguntar:

quando algo aconteceu na relação, o que estava acontecendo simultaneamente no cérebro, no coração e no comportamento de cada participante?

Neural e cardíaco não precisam dizer a mesma coisa

Essa integração também combate uma simplificação.

Sincronia neural e sincronia fisiológica não são necessariamente dois indicadores redundantes do mesmo processo.

O próprio artigo discute estudos anteriores em que sincronização neural esteve mais associada a sinais comunicativos, enquanto sincronização cardíaca esteve relacionada a aspectos afetivos e de co-regulação. Trabalhos com tarefas de cooperação e competição também encontraram efeitos distintos para os dois níveis. Springer

Essa diferença importa porque:

coordenar-se não significa necessariamente tornar-se igual.

A criança pode aumentar ativação enquanto o cuidador permanece relativamente estável.

Um pode antecipar.

O outro responder.

Uma modalidade pode aproximar-se enquanto outra se distancia.

Os autores observam ainda que fNIRS e ECG possuem temporalidades diferentes: respostas hemodinâmicas pedem janelas e defasagens mais longas, enquanto índices cardíacos podem acompanhar flutuações autonômicas mais rápidas. Springer

Talvez a multiescala não seja apenas um problema a corrigir.

Talvez seja parte daquilo que estamos tentando compreender.

Mas em que estado estava a relação?

É aqui que podemos acrescentar uma janela BrainLatam.

Imagine que encontramos aumento de frequência cardíaca na criança.

O que significa?

Sozinho, muito pouco.

Aconteceu durante a aproximação?

Diante de uma situação incerta?

Quando o cuidador ajudou?

Durante conflito?

Na solução conjunta de um problema?

Depois de uma mudança comportamental do adulto?

O dado ganha interpretabilidade quando podemos colocá-lo dentro da trajetória da interação.

Por isso podemos pensar:

A(t) ⇄ R(t) ⇄ B(t)

em que R(t) representa o estado da relação naquele momento.

Assim, não estudamos apenas dois organismos.

Estudamos:

dois organismos + aquilo que está acontecendo entre eles + aquilo que já aconteceu entre eles.

O vídeo sincronizado ganha enorme valor exatamente aqui.

Não porque ele “revele o significado”, mas porque ajuda a localizar o recorte fisiológico dentro do acontecimento relacional.

Se o objeto é a relação, a relação não pode permanecer invisível enquanto medimos apenas seus participantes.

O baseline nunca é relação zero

Esse ponto se torna ainda mais importante em cuidador-criança.

Quando a díade entra no laboratório, a relação já existe.

O período anterior a uma tarefa pode ser chamado experimentalmente de baseline, mas não corresponde a:

R = 0.

A criança já viveu milhares de encontros com aquele cuidador.

Reconhece voz, gestos, ritmos, formas de aproximação, maneiras de consolar, expectativas e histórias.

O presente experimental chega com memória relacional.

A pesquisa brasileira recente sobre terra-corpo-território em jovens quilombolas oferece uma janela útil para pensar esse tipo de continuidade: corpo, memória, afetos, biografia e território aparecem como dimensões que se entrelaçam na experiência, em vez de existirem como compartimentos independentes. Essa literatura não explica biologicamente a díade cuidador-criança, mas ajuda a questionar a ideia de um organismo sem história. brainlatam

Na linguagem BrainLatam:

nenhum sinal relacional chega a um Corpo-Território sem passado.

Dois computadores ou duas dinâmicas?

Há também um pressuposto escondido na forma como frequentemente representamos interação:

input → processamento → output.

Como se A enviasse uma mensagem para B, B processasse e devolvesse outra mensagem.

Mas a hipótese de computação analógica discutida recentemente pela BrainLatam permite outro enquadramento.

Talvez parte relevante da cognição dependa de dinâmicas contínuas: frequências, fases, excitação, propagação, ritmos, gradientes e diferentes escalas temporais.

Nesse caso, o encontro não precisa esperar uma “mensagem completa” adquirir significado para começar a alterar o organismo.

Uma mudança de prosódia.

Uma expressão facial.

Uma pausa.

Uma aproximação corporal.

Diferenças desse tipo podem modificar postura, atividade autonômica, atenção e excitabilidade antes de serem explicitamente nomeadas.

Então:

a diferença pode começar a transformar o Corpo-Território antes que o significado esteja completamente formado.

E a relação deixa de parecer um canal.

Passa a parecer uma dinâmica:

A₁ ⇄ R₁ ⇄ B₁ → A₂ ⇄ R₂ ⇄ B₂ → A₃ ⇄ R₃ ⇄ B₃.

Cérebro, coração, pulmão — todo recorte continua sendo recorte

Hong e colegas integram fNIRS e ECG, mas mencionam explicitamente que outros desenhos podem acrescentar medidas como aceleração ou eye-tracking conforme a pergunta científica. O próprio BioLab pode registrar também respiração.

Poderíamos continuar.

Pulmão.

Pressão.

Movimento.

Tônus muscular.

Interocepção.

Hormônios.

Relato.

Ambiente.

História.

Quanto mais medidas, mais rico o recorte.

Mas ainda é recorte.

Naquilo que a BrainLatam vem chamando de Mente Damasiana, interessa justamente a ideia de que os estados do organismo participam continuamente da experiência sentida; não existe um cérebro abstrato separado das condições corporais. brainlatam

Já o Monismo de Triplo Aspecto, de Alfredo Pereira Jr., oferece uma cautela ontológica adicional: matéria/energia, informação e sentiência podem ser pensadas como aspectos inseparáveis de uma única realidade, e não como três mundos independentes. brainlatam

Isso produz uma regra simples:

A ciência precisa recortar. O problema começa quando esquecemos que o recorte é um recorte.

ECG não é a relação.

fNIRS não é a relação.

Vídeo não é a relação.

Nem a soma dos três é o Corpo-Território inteiro.

Uma relação atravessa o tempo

Talvez o recorte mais difícil de medir seja justamente esse: a história da relação.

Cada novo encontro encontra uma relação já modificada pelos anteriores.

Podemos escrever:

R₁ + encontro₂ → R₂
R₂ + encontro₃ → R₃
R₃ + encontro₄ → R₄.

A arqueologia sul-americana oferece aqui uma bela janela. Babot e Hocsman propõem pensar uma “memória artefactual”: diferentes marcas de produção, uso e transformação precisam ser integradas para reconstruir a história de vida de um objeto. A analogia precisa permanecer cuidadosa — pessoas não são artefatos —, mas ajuda a pensar que o presente carrega vestígios de trajetórias anteriores.

E uma relação pode continuar participando de um Corpo-Território mesmo quando a reciprocidade já não pode produzir novos encontros.

Meu pai, Leixo Cionek, já faleceu.

Não podemos produzir juntos um novo encontro em que ambos respondamos e nos modifiquemos reciprocamente.

Mas os encontros que tivemos participaram da construção da relação e também de quem hoje encontra o mundo sem ele.

A memória dessa relação não é somente aquilo que consigo recordar.

É também aquilo que aqueles encontros já modificaram no Corpo-Território que hoje recorda.

Noé Martínez, artista indígena mexicano, explora em The Body Remembers justamente corpo, ancestralidade, história familiar e memória como presença transformada no corpo atual. Não é uma explicação neurocientífica; é outra janela latino-americana para uma pergunta semelhante: como aquilo que já passou continua participando daquilo que somos capazes de encontrar agora?

Então, o que significa estudar uma relação?

Hong, Moore e Quiñones-Camacho dão um passo metodológico muito importante porque permitem sincronizar mais precisamente quando cérebro, coração e comportamento mudam durante uma interação.

Talvez nosso próximo passo conceitual seja garantir que o quando da relação permaneça tão visível quanto o sinal medido.

Antes.

Aproximação.

Formação.

Regulação.

Conflito.

Reorganização.

Encerramento.

Depois.

E a história que já existia antes do primeiro trigger experimental.

Porque:

o significado do recorte depende também de onde aquele recorte apareceu na trajetória da relação.

Dois cérebros não bastam.

Dois corações também não.

Medir mais sistemas nos aproxima do fenômeno, mas não transforma a janela no todo.

Talvez estudar uma relação exija algo mais simples e mais difícil:

lembrar, durante toda a análise, que nosso objeto não são apenas dois Corpos-Territórios. É a história dinâmica que eles produzem ao se encontrarem.

E cada encontro termina.

Mas aquilo que ele transforma pode continuar encontrando o tempo.

Referências

Hong, Y., Moore, N. J., & Quiñones-Camacho, L. E. (2026). Synchronizing brains and hearts: A practical guide for caregiver–child fNIRS-ECG multimodal hyperscanning. Behavior Research Methods, 58, 199. https://doi.org/10.3758/s13428-026-03060-7
Paper central deste texto. Apresenta uma arquitetura integrada de fNIRS, ECG, vídeo e tarefas sincronizadas para estudar co-regulação cuidador-criança, incluindo dados de viabilidade com crianças de 3–7 anos e um desenho longitudinal. Springer

Pereira Jr., A. (2023). Introdução à Metafísica do Monismo de Triplo Aspecto. ANPOF.
Pensador e pesquisador brasileiro. Propõe matéria/energia, informação e sentiência como aspectos inseparáveis, oferecendo uma base para não confundir uma medida específica com a totalidade do fenômeno.

Babot, M. del P., & Hocsman, S. (2023). Decodificando la memoria artefactual desde el sur de Sudamérica. Fortalezas del análisis integral de artefactos líticos. Revista del Museo de Antropología, 16(1).
Arqueólogos argentinos. A ideia de memória artefactual é usada aqui apenas como analogia para trajetórias que deixam marcas cumulativas e exigem múltiplas linhas de observação.

“O nosso corpo ecoou: terra-corpo-território de jovens negras quilombolas” (2024).
Pesquisa brasileira que articula corpo, memória, afetos, biografia e território, ajudando a pensar o Corpo-Território como algo historicamente situado.

Noé Martínez (2024). The Body Remembers. Rose Art Museum.
Artista indígena mexicano. Trabalha corpo, ancestralidade, história familiar e memória como dimensões que continuam sendo reelaboradas no presente.

BrainLatam (2026). Dinâmica — e se cognição depender de computação analógica?
Propõe ampliar a discussão de dinâmica analógica para um Corpo-Território multiescala, mantendo clara a distinção entre hipótese BrainLatam e evidência experimental.

BrainLatam (2026). Monismo de Triplo Aspecto (Alfredo Pereira Jr.) Ampliado: Corpo, Experiência e Linguagem como uma Única Realidade.
Integra o MTA à hipótese Corpo-Território, destacando que os aspectos físicos, informacionais e experienciais não deveriam ser tratados como realidades independentes. brainlatam

BrainLatam (2026). Do neurônio ao Bioma — em qual escala começa o bem-estar?
Desenvolve a ideia de que a ciência pode escolher qualquer escala para observar um fenômeno, desde que não transforme o recorte escolhido no próprio todo. brainlatam






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States