Jackson Cionek
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A Consciência é Espacial

A Consciência é Espacial

Corpo-território, Weichö e a saída dos ótimos locais do conhecimento

Cada área do conhecimento tem seu próprio jargão.

A física fala em campo, energia, espaço, tempo, simetria, força, partícula e relação.
A química fala em ligação, reação, concentração, gradiente, catalisador e transformação.
A genética fala em DNA, expressão, diferenciação, regulação, herança e variação.
A medicina fala em diagnóstico, sintoma, exame, marcador, tratamento e prognóstico.
A psicologia fala em comportamento, cognição, emoção, memória, desejo e trauma.
A economia fala em mercado, dívida, crédito, risco, juros, produtividade e escassez.
A política fala em Estado, poder, representação, território, lei e soberania.
A religião fala em sentido, fé, rito, salvação, pertencimento, transcendência e morte.
A arte fala em forma, presença, gesto, ritmo, beleza, imagem e sensibilidade.

Cada área cria sua própria linguagem para entrar mais fundo em um pedaço do mundo.

Isso é poderoso.

Mas também cria um risco.

Cada área pode ficar presa em seu próprio ótimo local.

Um ótimo local é um lugar onde uma área funciona muito bem dentro de seus próprios pressupostos, métodos, métricas e jargões, mas começa a ter dificuldade de dialogar com outras áreas. O conhecimento avança dentro do seu território, mas perde pontes com outros territórios.

O jargão protege precisão.

Mas, quando vira muralha, dificulta analogias importantes.

E algumas analogias podem ser justamente a saída do ótimo local.

Este texto propõe uma pergunta simples para abrir essas muralhas:

Agora é dia ou noite?

A pergunta para 8,3 bilhões de corpos-territórios

Vamos perguntar para todos os habitantes do planeta:

Agora é dia ou noite?

A pergunta parece simples.

Mas a resposta muda conforme corpo, território, posição, escala e sistema de referência.

Para alguém no Brasil, pode ser dia.
Para alguém no Japão, pode ser noite.
Para alguém no Ártico, dependendo da época do ano, a pergunta pode exigir outra compreensão de luz, ciclo e estação.
Para alguém em uma estação espacial, a resposta muda muitas vezes em um único dia terrestre.
Para alguém em um quarto fechado, com luz artificial, a percepção imediata pode se afastar do ciclo exterior.
Para alguém em luto, festa, medo ou vigília, a qualidade vivida do tempo também muda.

Então, é dia ou noite?

A resposta correta precisa de coordenada.

A realidade exterior existe. A Terra gira. O Sol ilumina regiões diferentes. Há relações físicas entre planeta, estrela, rotação, inclinação, atmosfera, território e tempo.

Mas nenhum corpo-território vive a realidade exterior em estado puro.

Cada corpo-território constrói uma resposta situada.

A pergunta “Agora é dia ou noite?” mostra que a verdade não desaparece quando reconhecemos o ponto de vista.

Ela ganha coordenada.

Uma verdade sem coordenada pode virar imposição.

Uma verdade com corpo-território pode virar diálogo.

Cada corpo-território constrói mundo

No nosso conceito, o corpo-território é a unidade mínima do Estado.

Mas, antes disso, ele é a unidade mínima da experiência.

Cada corpo-território percebe, sente, antecipa, lembra, interpreta, sofre, deseja, aprende e pertence a partir de sua própria posição no mundo.

Cada corpo-território tem um Weichö.

Weichö, aqui, é usado como extensão conceitual respeitosa: uma forma própria de mundo, um modo singular pelo qual um corpo-território percebe, organiza e expressa realidade. Não é apenas estilo, opinião ou preferência. É um modo vivo de construção de mundo.

Quando cada corpo-território pode perceber e expressar seu próprio Weichö, o coletivo ganha mais realidade.

Ganha mais ângulos.
Ganha mais sinais.
Ganha mais experiências.
Ganha mais alertas.
Ganha mais formas de cuidado.
Ganha mais perguntas.
Ganha mais caminhos de futuro.

O Estado também fica maior.

Não maior como máquina autoritária.

Maior como campo vivo de representação.

Um Estado que escuta muitos Weichö reconhece mais mundo. Um Estado que força uma verdade única empobrece a realidade coletiva.

O corpo-território não é apenas cidadão administrado.

É território vivo de percepção.

Chalmers, Seth, Damasio e Pereira Jr.: perguntas que precisam conversar

David Chalmers chamou atenção para o “hard problem of consciousness”: por que processos físicos, cerebrais e funcionais vêm acompanhados de experiência subjetiva? Por que há algo que é “ser” alguém, sentir dor, ver vermelho, ouvir música, desejar, lembrar, sofrer ou perceber beleza?

Essa pergunta foi importante porque impediu que a consciência fosse reduzida a processamento de informação sem experiência.

Anil Seth desloca parte do debate para o que chama de “real problem”: explicar, prever e controlar propriedades da experiência consciente por meio de mecanismos corporais, cerebrais e comportamentais. Em vez de ficar apenas no abismo filosófico entre matéria e experiência, ele propõe investigar como experiências específicas aparecem, mudam e podem ser relacionadas a processos biológicos.

A filosofia abre grandes perguntas.

A neurociência tenta construir pontes operacionais.

O problema aparece quando cada área volta rápido demais ao próprio jargão e perde a chance de complementar a outra.

Damasio ajuda a recolocar o corpo no centro da consciência. A mente damasiana não é apenas cérebro abstrato. Ela envolve corpo, sentimento, interocepção, homeostase, imagens e perspectiva subjetiva.

Alfredo Pereira Jr., com o Monismo de Triplo Aspecto, ajuda a pensar que uma mesma realidade pode ser abordada por aspectos fisiológicos, informacionais/formais e experienciais/sensíveis. A vida consciente não precisa ser achatada em uma única linguagem. Pode ser pensada como realidade integrada com aspectos diferentes.

Nossa proposta entra nesse campo com uma frase simples:

a consciência é espacial.

A consciência é espacial

A consciência é espacial porque toda percepção precisa acontecer em algum lugar do corpo-território.

Perceber não é copiar o mundo exterior.

Perceber é criar e atualizar uma abstração representada dentro do corpo.

Essa abstração tem espaço.

No nosso modelo, a percepção é representada dentro do corpo-território em cinco dimensões:

3D, movimento e qualia.

O 3D é o espaço interno de representação: comprimento, largura e altura onde abstrações da experiência vivida ganham forma material.

O movimento é a dinâmica dessas representações: elas aumentam, diminuem, deslocam, competem, combinam, ganham prioridade, perdem força, retornam, desaparecem, reorganizam-se.

O qualia é a intensidade sensível da experiência: medo, prazer, dor, urgência, beleza, ameaça, confiança, alegria, pertencimento, esperança, estranhamento, paz.

Assim, perceber é construir um mundo espacial dentro do corpo-território.

A bola não entra pura no jogador.

A luz não entra pura no olho.

A palavra não entra pura no ouvido.

O rosto do outro não entra puro no cérebro.

Tudo é transduzido, comparado, filtrado, antecipado, sentido e representado dentro de espaços corporais que carregam memória, cultura, corpo, linguagem, afeto, biologia e território.

O mundo existe fora.

Mas a vida acontece dentro do corpo-território.

Uma linguagem comum para muitas áreas

Quando dizemos que a consciência é espacial, não estamos dizendo que todos os problemas estão resolvidos.

Estamos propondo uma linguagem comum.

Uma linguagem que pode conversar com várias áreas.

A física pode dialogar com espaço, movimento, sistema, campo, relação e escala.

A química pode dialogar com gradientes, metabolismo, concentração, sangue, hormônios e interocepção.

A genética pode dialogar com DNA, expressão gênica, diferenciação, desenvolvimento, plasticidade e tempo biológico.

A medicina pode dialogar com sintomas, exames, marcadores, fisiologia, diagnóstico e tratamento.

A psicologia pode dialogar com emoção, comportamento, memória, trauma, aprendizagem e desejo.

A religião pode dialogar com experiência, rito, sentido, pertencimento, morte, esperança e transcendência.

A política pode dialogar com corpo, território, Estado, representação, cidadania, violência e cuidado.

A economia pode dialogar com dívida, ansiedade, moeda, tempo, escassez, captura e existência.

A arte pode dialogar com forma, gesto, ritmo, imagem, presença, corpo e qualia.

O Corpo-Território 5D não substitui essas áreas.

Ele oferece uma mesa comum.

Um lugar onde diferentes jargões podem traduzir parcialmente seus fenômenos sem perder totalmente sua precisão.

Quantificar sem reduzir

Se a consciência é espacial no corpo-território, podemos investigá-la em várias camadas.

Sem reduzir tudo a uma única medida.

EEG pode observar frequências elétricas, conectividade funcional, temporalidade rápida, ritmos, oscilações e conectomas dinâmicos.

NIRS e fNIRS podem observar mudanças hemodinâmicas corticais, oxigenação, interação social, hyperscanning e corpos em movimento.

fMRI pode observar áreas ativadas, redes funcionais, conectividade, variações espaciais e padrões mais profundos do sistema nervoso.

ECG e HRV podem observar regulação autonômica, arousal, respiração indireta, carga alostática e estados corporais de ameaça ou segurança.

Exames de sangue podem observar inflamação, glicose, lactato, hormônios, metabolismo, marcadores imunes e condições corporais que modulam interocepção.

Vídeo e tracking podem observar gesto, postura, deslocamento, ritmo, expressão facial, coordenação, distância, aproximação, fuga, pausa e interação.

Exames estruturais podem observar forma, lesão, desenvolvimento, degeneração, conectividade anatômica e limites materiais.

Relatos fenomenológicos podem observar qualia, sentido, experiência, linguagem própria, sofrimento, beleza, fé, medo e pertencimento.

Nenhuma dessas medidas captura a consciência inteira.

Mas cada uma pode criar uma ponte parcial.

Quantificar não é matar o fenômeno.

Quantificar é criar formas parciais de diálogo entre dimensões do fenômeno.

Luria, Peirce e a saída do cérebro isolado

Alexander Luria, um dos fundadores da neuropsicologia moderna, ajuda muito aqui.

Sua neurociência integrou cérebro, cultura, linguagem, história e ambiente social. Ele propôs que funções mentais superiores, como linguagem, memória, planejamento e raciocínio, não são peças fixas em áreas isoladas, mas sistemas funcionais complexos construídos pela interação entre cérebro e mundo social.

Luria nos ajuda a sair do cérebro isolado.

Charles Sanders Peirce também ajuda.

Sua semiótica mostra que o mundo humano é atravessado por signos, interpretação e semiose. O sentido não está apenas na coisa, nem apenas na mente isolada. Ele emerge em processos de relação, mediação e interpretação.

Peirce nos ajuda a sair da palavra isolada.

Luria ajuda a tirar a mente do cérebro fechado.

Peirce ajuda a tirar o significado da coisa muda.

O Corpo-Território 5D tenta tirar a consciência do jargão isolado.

A consciência é espacial porque ela acontece em corpos que interpretam mundo em relação.

O ótimo local como risco epistemológico

Cada área do conhecimento encontra seus ótimos locais.

A neurociência pode ficar presa em áreas ativadas.

A filosofia pode ficar presa em perguntas sem operacionalização.

A economia pode ficar presa em modelos que esquecem o corpo.

A medicina pode ficar presa em protocolos que perdem território.

A psicologia pode ficar presa em categorias que ignoram biologia, política e cultura.

A religião pode ficar presa em verdades que apagam outros mundos.

A política pode ficar presa em instituições que esquecem a respiração do cidadão.

A tecnologia pode ficar presa em eficiência sem perguntar eficiência para quem.

O ótimo local de uma área é útil enquanto resolve problemas.

Mas vira prisão quando impede perguntas atravessarem fronteiras.

A pergunta “Agora é dia ou noite?” funciona porque desmonta a arrogância do ponto de vista único.

Ela obriga a perguntar:

onde?

para quem?

em qual corpo?

em qual território?

em qual escala?

em qual sistema de referência?

com qual linguagem?

com qual consequência?

Essa pergunta simples tira o conhecimento do absoluto abstrato e o devolve ao corpo-território.

Economia, captura e ansiedade do Estado

A economia também tem jargões.

Mercado.
Risco.
Expectativa.
Confiança.
Investimento.
Crescimento.
Austeridade.
Dívida.
Inflação.
Câmbio.
Liquidez.
Produtividade.
Precificação.

Esses termos podem descrever fenômenos reais.

Mas também podem esconder corpos reais.

Quando o jargão econômico se desconecta do corpo-território, a sociedade começa a aceitar frases estranhas como se fossem leis naturais:

“o mercado está nervoso”.

“o mercado está incomodado”.

“o mercado reagiu mal”.

“o mercado exige ajuste”.

Mas quem é esse mercado?

Quais corpos falam por ele?

Quais interesses são protegidos?

Quais vidas ficam fora da conta?

Quais territórios pagam o preço?

Em sociedades capturadas, diferentes setores podem funcionar como canais de conversão entre poder econômico, influência política, dívida pública, narrativa moral e legitimação social. O problema não é apenas um setor isolado. É o circuito.

Capital, Estado, mídia, crédito, lobby, religião, tecnologia, crime, privatização, financeirização e propaganda podem formar sistemas de captura quando deixam de servir à vida comum e passam a organizar a sociedade em torno da extração.

Nessa lógica, o Estado entra em ansiedade.

Ansiedade fiscal.
Ansiedade cambial.
Ansiedade de dívida.
Ansiedade de credibilidade.
Ansiedade de fuga de capitais.
Ansiedade de aprovação do mercado.
Ansiedade de orçamento capturado.
Ansiedade de governabilidade comprada.

Mas ansiedade é efeito.

A causa mais profunda está na forma como o dinheiro, o crédito, a dívida e a captura institucional organizam o corpo coletivo.

Quando o dinheiro nasce principalmente como dívida, o corpo social passa a respirar em dívida.

“Isso já está precificado”: quando o jargão vira fuga da realidade

Uma das respostas mais comuns de economistas presos ao ótimo local do mercado é:

“isso já está precificado.”

A frase parece sofisticada.

Em alguns contextos técnicos, ela pode ter utilidade. Pode indicar que determinado conjunto de agentes financeiros incorporou uma expectativa em seus modelos, ativos, riscos, preços e estratégias.

Mas, muitas vezes, funciona como ponto final artificial.

Ela encerra a conversa antes da pergunta seguinte.

Precificado por quem?
Com quais dados?
Em qual mercado?
Em qual escala?
Com qual acesso à informação?
A partir de qual corpo-território?
Quem teve poder de formar esse preço?
Quem apenas recebeu o preço como destino?
Quem lucra com essa precificação?
Quem adoece com ela?
Quem fica fora da conta?

“Isso já está precificado” se torna uma frase de ótimo local quando transforma uma hipótese de mercado em verdade total sobre a realidade.

O mercado pode precificar ativos.

Mas o corpo-território vive consequências.

A fome não está plenamente precificada no corpo que acorda sem comida.

A ansiedade da dívida não está plenamente precificada na respiração de uma família.

A destruição da Mata não está plenamente precificada no território que perde água.

O medo do desemprego não está plenamente precificado no sono de quem sustenta uma casa.

A infância sem futuro não está plenamente precificada no olhar de uma criança.

A exaustão de uma mãe não está plenamente precificada na taxa de juros.

A humilhação de um cidadão diante de um serviço público não está plenamente precificada no balanço fiscal.

O luto de uma comunidade atingida por desastre ambiental não está plenamente precificado no relatório de risco.

A expressão “isso já está precificado” pode trocar realidade por modelo.

Pode trocar corpo por abstração.

Pode trocar território por expectativa financeira.

Pode trocar pergunta viva por jargão morto.

Pode transformar uma resposta parcial em bloqueio de consciência.

A consciência é espacial porque toda realidade percebida precisa acontecer em algum corpo-território. Então, antes de aceitar que algo “já está precificado”, precisamos perguntar:

em qual corpo essa precificação chegou como cuidado, e em qual corpo chegou como cobrança?

Essa pergunta tira a economia do seu ótimo local e a devolve ao mundo.

Mercenários da monetização

Os mercenários da monetização aparecem quando sofrimento vira oportunidade de extração.

A ansiedade social vira mercado.
A dívida vira mercado.
A doença vira mercado.
A atenção vira mercado.
A fé vira mercado.
A infância vira mercado.
O medo vira mercado.
A esperança vira mercado.
A previsão vira mercado.
A solidão vira mercado.

As bets são exemplo claro.

Elas capturam a capacidade humana de prever futuro e transformam em clique, depósito, perda, quase-acerto e repetição.

Mas a lógica é maior.

Quando uma sociedade é organizada para adoecer, muitas indústrias passam a lucrar com o adoecimento. Algumas vendem alívio. Outras vendem distração. Outras vendem controle. Outras vendem promessa. Outras vendem fuga. Outras vendem tratamento depois que a própria organização social produziu a ferida.

Por isso, precisamos perguntar:

a economia está reduzindo sofrimento ou produzindo sofrimento monetizável?

A tecnologia está cuidando do corpo-território ou capturando seus sinais?

A medicina está tratando causas sociais ou apenas efeitos individuais?

A política está protegendo existência ou administrando dívida?

O Estado está criando pertencimento ou entregando corpos aos mercados que prometem pertencimento?

Diplomacia Corpo-Território

Se o corpo-território é a unidade mínima do Estado, então toda relação do Estado com um cidadão precisa carregar diplomacia.

Diplomacia, aqui, não é apenas relação entre países.

É uma forma de presença.

É o modo como uma instituição se aproxima de um corpo vivo sem esmagar seu Weichö, sem apagar sua história, sem reduzir sua existência a número, dívida, CPF, prontuário, processo, senha, cadastro, produtividade ou suspeita.

Um Estado decolonial não fala com o cidadão como quem administra objeto.

Fala como quem entra em relação com um território vivo.

Cada atendimento público é diplomacia.

Cada escola é diplomacia.

Cada posto de saúde é diplomacia.

Cada política de renda é diplomacia.

Cada abordagem policial é diplomacia.

Cada decisão judicial é diplomacia.

Cada moeda pública é diplomacia.

Cada dado coletado é diplomacia.

Cada tecnologia aplicada ao corpo é diplomacia.

Porque cada corpo-território carrega mundo.

Carrega memória, cultura, linguagem, fome, medo, sonho, trauma, alegria, ancestralidade, território, família, religião, bioma, expectativa e futuro.

Quando o Estado encontra esse corpo, ele não encontra apenas um indivíduo isolado.

Encontra um mundo situado.

A pergunta deixa de ser:

“como enquadrar esse cidadão no sistema?”

E passa a ser:

“como o sistema pode encontrar esse corpo-território sem destruir sua capacidade de pertencer, perceber, revisar e se expressar?”

Essa é a diplomacia de Estado aplicada ao corpo-território.

O Efeito Borboleta do pertencimento

O Efeito Borboleta nos ajuda a pensar os pequenos gestos que reorganizam coletivos.

Uma palavra muda respiração.

Um atendimento muda confiança.

Uma humilhação muda pertencimento.

Uma escuta muda futuro.

Um dado coletado sem cuidado muda relação com o Estado.

Uma renda que chega sem humilhação muda a respiração de uma casa.

Uma escola que escuta muda a relação de uma criança com a própria inteligência.

Uma política ambiental que remunera quem cuida da Mata muda a relação entre território e economia.

O Estado também precisa aprender a permanecer na flor.

Permanecer na flor é ficar tempo suficiente com o corpo real antes de fugir para o rótulo.

Quando o Estado reage rápido demais, ele rotula.

Quando rotula rápido demais, perde o corpo.

Quando perde o corpo, vê apenas categoria:

pobre, inadimplente, paciente, aluno, suspeito, beneficiário, eleitor, usuário, contribuinte, devedor.

A diplomacia corpo-território exige outra postura.

Antes de rotular, escutar.

Antes de cobrar, compreender.

Antes de punir, contextualizar.

Antes de digitalizar, proteger.

Antes de medir, perguntar o que a medida fará com o corpo medido.

Antes de criar dívida, perguntar se aquele corpo recebeu condições reais de existência.

Esse pequeno deslocamento cria pertencimento.

E pertencimento muda Estado.

Pertencimento como infraestrutura pública

Pertencimento não é detalhe emocional.

Pertencimento é infraestrutura de Estado.

Um cidadão que sente pertencimento tem mais chance de participar, revisar, cuidar, estudar, denunciar captura, proteger território, confiar em políticas públicas e construir futuro comum.

Um cidadão humilhado pelo Estado tende a se afastar, endurecer, desconfiar, obedecer apenas por medo ou procurar pertencimento em grupos capturados.

Por isso, a diplomacia corpo-território é também política anticaptura.

Reduz o espaço para líderes falsos.

Reduz o espaço para mercados predatórios.

Reduz o espaço para bets.

Reduz o espaço para plataformas, milícias, algoritmos, empresas ou instituições que prometem pertencimento enquanto capturam o corpo.

O Estado que oferece pertencimento com cuidado fortalece o Jiwasa verdadeiro.

O Estado que abandona o corpo-território entrega seus cidadãos aos mercenários da monetização.

DREX Cidadão e a pergunta econômica decolonial

Aqui voltamos ao dinheiro.

Se o corpo-território é a unidade mínima do Estado, o dinheiro público precisa encontrar esse corpo com diplomacia.

Não apenas como crédito.

Não apenas como dívida.

Não apenas como benefício humilhante.

Não apenas como score.

Não apenas como cadastro.

Mas como reconhecimento de existência.

DREX Cidadão, como proposta conceitual, poderia ser pensado como moeda pública digital orientada à existência digna dos corpos-territórios.

Não como programa oficial já existente.

Mas como pergunta de desenho institucional:

e se a infraestrutura digital do dinheiro pudesse servir primeiro à vida?

E se a moeda pública pudesse remunerar cuidado, preservação, regeneração, educação, saúde, pertencimento, Mata em pé e território?

E se o Estado usasse tecnologia monetária para reduzir ansiedade existencial, em vez de apenas sofisticar mercados financeiros?

A economia colonial pergunta:

“quanto você deve?”

A economia decolonial pergunta:

“o que seu corpo-território precisa para existir com dignidade agora?”

Essa é a virada.

A consciência é espacial, a política também

A consciência é espacial porque todo mundo vivido precisa aparecer em algum lugar do corpo-território.

A política é espacial porque todo direito precisa chegar a algum corpo em algum território.

A economia é espacial porque toda dívida aperta uma respiração, uma casa, uma família, uma cidade, uma Mata.

A ciência é espacial porque toda medida nasce de uma posição.

A religião é espacial porque todo sentido precisa tocar um corpo que sofre, espera, ama, teme e morre.

A medicina é espacial porque todo sintoma acontece em um corpo situado.

A psicologia é espacial porque toda emoção tem corpo, história, relação e ambiente.

A tecnologia é espacial porque todo dado sai de algum corpo e volta como decisão sobre corpos.

O espaço não é apenas externo.

É também interno.

É perceptivo.

É afetivo.

É político.

É econômico.

É espiritual.

É institucional.

É corpo-território.

A saída dos ótimos locais

A saída dos ótimos locais começa quando uma área aceita visitar a linguagem da outra.

A filosofia pode levar boas perguntas à neurociência.

A neurociência pode levar medidas à filosofia.

A medicina pode levar corpo à política.

A política pode levar território à economia.

A economia pode levar dívida à psicologia.

A psicologia pode levar sofrimento à medicina.

A religião pode levar sentido à ciência.

A ciência pode levar humildade à religião.

A arte pode levar qualia a todas.

O objetivo não é dissolver as áreas.

O objetivo é criar zonas de tradução.

Lugares onde conceitos atravessam fronteiras e voltam melhores.

Um pesquisador pode sair um pouco do ótimo local de sua área, visitar outra linguagem, encontrar uma analogia, formular uma nova pergunta e retornar com novo experimento.

É assim que o conhecimento respira.

Neurodesafio final

A pergunta “Agora é dia ou noite?” parece pequena.

Mas ela abre o planeta.

Mostra que toda verdade humana precisa de corpo, território, escala e relação.

Mostra que cada corpo-território constrói mundo a partir de sua posição.

Mostra que cada Weichö é uma referência viva para o coletivo.

Mostra que um Estado decolonial precisa escutar mundos, não apenas administrar indivíduos.

Mostra que a ciência precisa de medidas, mas também de tradução.

Mostra que a economia precisa sair da dívida e voltar à existência.

Mostra que a política precisa praticar diplomacia com cada corpo-território.

Mostra que a consciência é espacial.

Quando cada Weichö pode se expressar, o coletivo ganha mais mundo.

Quando o coletivo ganha mais mundo, o Estado fica maior.

E quando o Estado fica maior em pertencimento, ele precisa capturar menos, punir menos e humilhar menos.

Ele pode cuidar mais.

Talvez esse seja o ponto final da série:

deixar de tratar corpos como unidades de dívida, voto, consumo, dado ou produtividade

e começar a tratá-los como territórios vivos de percepção.

A consciência é espacial.

O Estado também precisa ser.

Referências pós-2021 e bases de diálogo

Seth, A. K., & Bayne, T. (2022). Theories of consciousness. Nature Reviews Neuroscience.
Revisão importante sobre teorias contemporâneas da consciência, útil para situar debates entre filosofia, neurociência, teorias cognitivas e modelos explicativos.

Seth, A. K. (2021). Being You: A New Science of Consciousness. Faber & Faber.
Base contemporânea para pensar consciência, percepção, corpo, predição e o deslocamento do “hard problem” para problemas mais operacionalizáveis da experiência.

Damasio, A., & Damasio, H. (2024). Homeostatic Feelings and the Emergence of Consciousness. Journal of Cognitive Neuroscience.
Ajuda a fundamentar a relação entre sentimentos homeostáticos/interoceptivos, produção de imagens, corpo, perspectiva subjetiva e emergência da consciência.

Pereira Jr., A. (2023). Qualiomics: The metaphysics of consciousness.
Aproxima o debate da consciência de uma abordagem que considera aspectos fisiológicos, informacionais/formais e experienciais, em diálogo com o Monismo de Triplo Aspecto.

Theriault, J. E., Katsumi, Y., Reimann, H. M., Zhang, J., Deming, P., Dickerson, B. C., Quigley, K. S., & Barrett, L. F. (2025). It’s not the thought that counts: Allostasis at the core of brain function. Neuron.
Sustenta a alostase como núcleo da função cerebral, ajudando a pensar corpo, previsão, regulação e experiência como processos inseparáveis.

Delgado, M. R., et al. (2023). Characterizing the mechanisms of social connection. Neuron.
Ajuda a fundamentar conexão social como mecanismo regulatório, importante para pertencimento, Estado, cuidado e Jiwasa.

Czeszumski, A., et al. (2022). Cooperative Behavior Evokes Interbrain Synchrony in the Prefrontal and Temporoparietal Cortex. eNeuro.
Revisão sistemática e meta-análise de hyperscanning fNIRS, útil para pensar sincronia entre corpos e Jiwasa verdadeiro como hipótese operacional.

Zhang, H., Liu, H., Li, Z., & Zhang, D. (2025). Distinct fNIRS Inter-Brain Coupling Patterns for Cooperation versus Competition in a Tennis Game. Social Cognitive and Affective Neuroscience.
Aproxima fNIRS hyperscanning de contextos esportivos e ajuda a pensar competição e cooperação como formas distintas de acoplamento.

Zaragocin, S., & Caretta, M. A. (2021). Cuerpo-Territorio: A Decolonial Feminist Geographical Method for the Study of Embodiment. Annals of the American Association of Geographers.
Referência importante para o conceito corpo-território como método decolonial de estudo da experiência incorporada e territorializada.

Tan, B. J. (2023). Central Bank Digital Currency and Financial Inclusion. IMF Working Paper.
Ajuda a discutir CBDCs e inclusão financeira, servindo como base para pensar DREX Cidadão como horizonte conceitual de moeda pública voltada à existência.

OECD. (2023). Central Bank Digital Currencies and Democratic Values.
Contribui para pensar moeda digital pública a partir de privacidade, governança democrática, confiança e riscos de controle.

Banco Central do Brasil. (2024–2026). Drex — Real Digital e FAQ Drex.
Base oficial para distinguir o Drex existente, ainda em fase de testes, da proposta conceitual de DREX Cidadão.

Brasil. Lei nº 14.119, de 13 de janeiro de 2021. Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais.
Base jurídica para pensar remuneração por conservação, recuperação e manejo sustentável do meio ambiente.

Brasil. Lei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024. Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa.
Base jurídica para pensar mercado regulado de carbono e a necessidade de garantir que ativos climáticos beneficiem territórios e comunidades cuidadoras.

Referências clássicas complementares

Chalmers, D. J. (1995). Facing Up to the Problem of Consciousness. Journal of Consciousness Studies.
Referência clássica para o “hard problem of consciousness”, a dificuldade de explicar por que processos físicos vêm acompanhados de experiência subjetiva.

Luria, A. R. (1966/1973). Higher Cortical Functions in Man / The Working Brain.
Base clássica da neuropsicologia para pensar funções mentais superiores como sistemas funcionais complexos, articulando cérebro, linguagem, cultura e ambiente social.

Peirce, C. S. (textos clássicos sobre semiótica e semiose).
Base filosófica para pensar signos, interpretação e produção de sentido como processos relacionais, úteis para aproximar percepção, linguagem e mundo.

A base contemporânea da seção de consciência está ancorada em Seth & Bayne, que revisam teorias atuais da consciência, em Damasio & Damasio, que propõem sentimentos interoceptivos, imagens e perspectiva subjetiva como processos necessários para mente consciente, e em Pereira Jr., que retoma o Monismo de Triplo Aspecto na discussão de qualia. (PubMed)

A ponte com corpo, alostase e pertencimento está apoiada em Theriault et al., que colocam a alostase no centro da função cerebral, e em Delgado et al., que revisam mecanismos neurais e psicológicos da conexão social. (PubMed)

A parte de quantificação e sincronia entre corpos dialoga com Czeszumski et al., cuja meta-análise de fNIRS hyperscanning encontrou sincronia interbrain em cooperação, e com Zhang et al., que compararam padrões de acoplamento interbrain em cooperação e competição usando fNIRS. (PMC)

A camada corpo-território está ancorada em Zaragocin & Caretta, que descrevem cuerpo-territorio como método decolonial-feminista baseado na unidade ontológica entre corpo e território. (IDEAS/RePEc)

Para DREX Cidadão, mantive a distinção entre proposta conceitual e programa oficial: o Banco Central descreve o Drex como infraestrutura para transações com ativos digitais e contratos inteligentes; Tan discute CBDCs e inclusão financeira; a Lei 14.119/2021 institui a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais; e a Lei 15.042/2024 criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa. (Banco Central do Brasil)





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Jackson Cionek

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